É do mexicano Octavio Paz, em seu homônimo “O arco e a lira” (1956), a conhecida asserção de que “o poema é um encontro entre a poesia e homem”. Para além dos truísmos que ela possivelmente logre motivar — como o fato de que é escrevendo e lendo concretamente os poemas particulares que os humanos, enquanto, respectivamente, poetas e leitores se encontram com o sentido geral do gênero literário da poesia — a afirmação de Paz sugere também algo bem menos óbvio.
Qualquer poema, mesmo o mais singelo, demanda de nós tempo, demora e dedicação. É desse encontro temporalmente dilatado que, para nós, poder-se-á consumar alguma compreensão do hábito milenar de versificar e, em versos-como-estruturas-mínimas, condensar tantos sentidos de muitos modos distintos. Assim, encontrar-se com a poesia no poema é, para ouvidos puramente filosóficos, a oportunidade de passar do particular para o geral: exatamente como fez Aristóteles em sua Poética segundo o método da Física. Por outro lado, no entanto, será, para os ouvidos mais atentos ao pensamento que se incorpora nas concreções da arte, uma oportunidade de encontro com outros muitos modos de dizer, descrever, olhar e mostrar o mesmo, e novamente. Certamente haverá aí um diálogo com a tradição, uma inédita perspectiva frente ao cotidiano e suas repetições e fracassos, ou o fascínio herético em profanar as heranças ou, ainda, o desejo: de virar a luva, derrubar o bolo, de se lançar da plataforma rumo ao infinito. “Para quem quer se soltar, invento o cais, invento mais que a solidão me dá”, escreveram astuciosamente Milton Nascimento e Lô Borges.
O livro que a leitora ou o leitor têm em mãos é uma excelente oportunidade de encontro com a poesia por meio dos poemas de Ogiva (2026), de Juan Pablo V. D. Seu livro de estreia é um conjunto bastante surpreendente de poemas em verso livre, em que se repetem constelações rítmicas, temáticas e imagéticas, entre excessos verbais e sintáticos que promovem, sob espirais de insistência, uma pontuação idiossincrática e uma revisitação quase anarquista da tradição, sucessivas passagens que nos permitem ir do grito ao murmúrio.
A ironia pós-analítica destes poemas — em que a elucubração filosófica e suas eruditas análises rapidamente dão espaço à constatação de sua distância vital frente ao que a vida de fato exige de nós — parece-me ser uma de suas marcas distintivas. Contudo, ela não autoriza uma leitura dogmática de Ogiva. Porque, embora distintiva, aqui e ali com ela se alternam em desarmante delicadeza visões sobre o que nos faz tão humanos: o desamparo, o amor, o trabalho, a melancolia. Há, nos poemas aqui presentes, não uma litania poética aos ideários da tradição literária; mas sobretudo um modo distintivo de abordá-los. Como em “mon amour”, onde o clássico tema romântico se subverte em franca exposição da melancolia sob a roupagem freudiana do eu à sombra do objeto perdido. E, mais importante, a sugestão do (agora) amor/melancolia em seu caráter elementar e radioativo; feito indício da explosão da ogiva.
Guilherme Mautone
Professor de Filosofia e Ciências Humanas, membro da Associação Brasileira de Críticos de Arte e Presidente do Conselho Cultural do Remanso — Instituto Cultural