O azul antes do preto

Disponibilidade: Brasil

Ele abotoa a camisa, penteia o cabelo, se perfuma, tudo ao mesmo tempo, na correria típica de quem está atrasado para o trabalho. E ela de pé no meio da sala, imóvel, os olhos cravados na televisão. Passou por ela uma vez, indo à cozinha pegar a marmita. Depois de novo, voltando da lavanderia com meias secas. E só então:
— Que que cê tá vendo aí?
Sentou-se no sofá para calçar os sapatos.
— Um absurdo, amor. Jesus Cristo.
Ele leu a manchete no telejornal.
— Oitenta tiros?! Como pode uma coisa dessas?

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_sobre este livro

 “Ao longo da história, as capacidades de homens negros lampejam aqui e ali como estrelas candentes, e às vezes morrerem antes que o mundo tenha de fato reconhecido seu brilho”. É com essa bela e melancólica imagem que o pensador W.E.B. Du Bois simboliza a condição dos homens negros no mundo moderno.

O azul antes do preto, de Vinicius Silva Souza, nos oferece um céu com muitas estrelas cadentes negras que lampejam por meio de uma escrita comprometida em retratar a vida de homens, em sua maioria pobres, que tentam sobreviver. Porém, em seus 16 contos, o racismo é o grande cometa que ofusca o brilho de quem tende a ter sua vida transformada em estatística.

Assim como Marcos, jovem protagonista do conto de abertura “Um tiro”, são homens que tinham “infinitas possibilidades à sua frente”, em que o tempo pretérito do verbo “ter” anuncia, como uma espécie de mau presságio, o destino previsível à espera de cada rapaz negro no Brasil: ser mais um corpo tombado no chão. Porém, é justamente com a literatura que Vinicius ousadamente desafia esse horizonte de morte.

No livro, o tempo ruim não é só uma fase e o sofrimento nem sempre alimenta mais a coragem. Mas está é a força da obra: retratar sem disfarces, mas sem perder a delicadeza, o desencanto, a tristeza, o trauma, o medo, a ansiedade que marcam a vida de homens que vivem na mira de um gatilho e, ainda assim, buscam forjar outras possibilidades de vida, ao mesmo tempo que parecem roubados todos os dias das vivências mais ordinárias.

Num contexto neoliberal que celebra conquistas de pessoas negras como se essas vitórias atenuassem a brutal violência racial, Vinicius constrói com doce ironia e cruel realismo narrativas de homens que não são exemplos de nada, muito menos heróis. Com exceção do menino que descobre que pode ser como o Pantera Negra, eles também não desejam nada disso. Afinal, como desabafa um personagem, “vida de pobre é foda”. O que querem é viver dignamente.

Revelando um grande domínio técnico do gênero conto, Vinicius enreda quem lê numa atmosfera em que tememos que uma tragédia se abata sobre cada personagem, como um homem que corre em ruas hostis, um jovem que compra uma moto, um militante aguerrido na universidade. Mas, se cada conto funciona como uma denúncia, seu talento maior é nos fazer imaginar que a liberdade negra pode ser azul da cor do mar.

Fernanda Silva e Sousa

_outras informações

isbn: 978-85-7105-240-6
idioma: português
encadernação: brochura
formato: 14x19,5 cm
páginas: 124 páginas
papel polén 90g
ano de edição: 2025
edição: 1ª

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