Uma amoreira irrompendo a hostilidade do concreto da metrópole. Olhos, coxas, virilhas, pele, boca, tímpanos: um corpo vivo e lúbrico. Um território engendrado na violência, constituído de carne tupinambá. A natureza ativa: o sal, a pedra, os cachorros, o mar, a chuva, os fiordes de cana, o deserto. Os lugares onde a vida acontece, onde a vida estanca: São Paulo, Cajuru, Pompeia, Campinas, Roma, Itamambuca.
Baleia, livro de estreia de Felipe Bier Nogueira, é um entremeado de imagens fortes e dicotomias profundas: o erótico e o ingênuo, o profano e o sagrado, o coletivo e o estritamente individual, o transcendente e o tangível, a vida e a morte, o alusivo e o literal, a memória e o esquecimento.
A poesia de Felipe é imagética, sensorial, carregada de musicalidade e simbolismo. Os poemas são compostos de todas as coisas que constituem a vida, a matéria fina que molda um país e uma cidade, uma mãe e um pai, os ventos e as ausências. Baleia imprime no leitor a sensação de estar vendo algo que é ao mesmo tempo original e primitivo. Felipe escreve resgatando a ancestralidade das palavras.
Os versos soam estranhos e familiares. E é tão bonito, que é difícil de esquecer: na boca aberta do país há uma placa de pus, rasgar convulsões aos semblantes, Brasil é máquina de moer ficções, o sol estilhaça em cosseno perfeito, os olhos vidrados de sim, moagem de chuva e solo, Junho, mês dos cachorros com nomes de filhos, mês dos úteros soterrados de azul.
Em um dos poemas, Felipe diz que um livro se escreve do miolo. E é verdade. Pelo menos no que diz respeito aos bons livros, o que, definitivamente, é o caso de Baleia.
A escrita nasce do tutano da língua. É preciso afiar a pena e escavar sem medo até o alcance da medula das palavras.
Maria Fernanda Elias Maglio