Foi Júlio Cortázar quem escreveu: “A gênese do conto e do poema é […] a mesma, nasce de um repentino estranhamento, de um deslocar-se que altera o regime ‘normal’ da consciência”. Escolhi destacar esse trecho de Cortázar porque, ao ler os contos deste A carne entre dois ossos, senti o arrepio que se sente quando sabemos estar em contato com matéria poética capaz de se fundir e se transmutar em algo maior que a coisa em si.
Um tipo de matéria capaz de deslocar a nossa percepção, atraindo-a para um corpo-centro, semente, tal qual acontece na poesia.
Ao ler os contos de estreia de Yann Maia, foi impossível não sentir um deslumbramento, uma melancolia…
um êxtase! A escrita, esculpida com refinamento, nos convida a adentrar pelos interstícios de narrativas que, apesar de curtas, parecem possuir mil camadas, mil véus (assim como os poemas!). Narrativas que se desembrulham, aos poucos, de si mesmas, nos levando a tocar o universo íntimo, tantas vezes ambíguo, de personagens humanas, tão humanas, que nos espelham em suas fragilidades, carências, afetos, solidão.
Alguns contos marcam pela urdidura delicada. E é nessa delicadeza que as personagens nos entregam a própria existência. É impossível não se emocionar com Alzira, matriarca de um cotidiano que, vagarosamente, a engole entre paredes, enquanto prega a Deus naquele ano de 1991. Ou com os irmãos do conto que dá título à obra, que nos fazem sentir a carne viva de tantas melancolias, memórias e desencontros.
Nestes contos, Yann nos apresenta um livro escrito sob a fina linha da sensibilidade tão bem combinada à lapidação das palavras, essa matéria às vezes fugidia, mas capaz de alcançar algo em nós, forma sublime de se contar o humano.
Taylane Cruz
escritora