Amor, tempo, morte, domingos e outras inutilidades abundantes

Disponibilidade: Brasil

tonteei na borda; um inepto na corda bamba. fiquei mesmo a um palmo de me desgarrar dos arrimos invisíveis. mirei a fundura do horizonte. encarei-o com venerável escárnio. inesperadamente, enxerguei o limite. agora, sei o que me dizem as feridas; e me contamina o lânguido sussurro do clichê: “nada é em vão”. certo: não preciso da imortalidade dessa terra iníqua. serei o acúmulo dos que me amam.

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_sobre este livro

Seria possível pensar a linguagem sem a potência inventiva dos poetas? Lendo o novo livro de Adriano Espíndola Santos, Amor, tempo, morte, domingos e outras inutilidades abundantes, chego à conclusão de que as palavras sempre serão insuficientes para dizer quem somos, pois existe um impossível, imprescindível à linguagem humana.

O autor escreve para expressar sua forma singular de formular as questões de vida e morte da existência e em sua obra são recorrentes a autoconsciência, tédio e náusea, o desencontro, melancolia e angústia.

A marca é o estranhamento do ser, a inquietação diante do desamparo, um dos fenômenos “invisíveis” mais crescentes em nosso tempo.

O desamparo não é apenas uma fase, mas uma condição humana eterna, é a cicatriz mais antiga do sujeito, sendo o motor da angústia e, paradoxalmente, a base sobre a qual o ser humano constrói sua subjetividade e laços amorosos. Portanto, é de uma angústia primordial, primeira, que se supõe na base do nascimento do sujeito, que se trataria do desamparo.

O livro traz uma experiência existencial central, marcada pela fragmentação do “eu”, solidão radical e a consciência da finitude. “Uma porção de mim é o vazio; a outra, o resgate arcaico dos instintos.”

O autor expressa a incapacidade de encontrar sentido ou amparo, tal como em Fernando Pessoa, nas relações, na rotina ou em crenças, resultando em um desassossego e na sensação de não pertencer a lugar algum.

O texto avança num ritmo quase kafkiano, convocando o leitor a um mergulho no núcleo da angústia, esse afeto desamarrado de causas concretas, enraizado na própria condição de ser.

Como dizia Drummond: “Vai pé ante pé procurar o remédio, mas haverá remédio para existir senão existir?”.

Existir é, pois, estar condenado à busca por sentido, e expõe a hesitação do sujeito diante da inevitabilidade da existência.

A dor de existir na obra de Adriano Espíndola Santos é a expressão do sujeito marcado pela falta, pelo desejo sem objeto fixo e pelo real que escapa à linguagem. Aqui a poesia se torna um solo simbólico que tenta dar sentido ao trauma não representável da vida humana.

O texto tem a fluidez da associação livre, como se o autor estivesse falando num divã de analista e também a estrutura de um sonho, conservando assim, sempre algo de insondável.

Portanto, caro leitor, suspenda a ingenuidade de tentar interpretá-lo, pois o livro desvela os labirintos da alma mediante impasses e reflexões frente ao desafio de suportar o mal-estar na civilização. Eu diria que, antes de interpretar, somos interpretados.

Tânia Sales

Escritora e psicanalista

 

_outras informações

isbn: 978-85-7105-497-4
idioma: português
encadernação: brochura
formato: 13x16,5cm
páginas: 168 páginas
papel pólen 90g
ano de edição: 2026
edição: 1ª

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