Em 30 anos blue, Dieison Marconi escreve uma narrativa autobiográfica que é, ao mesmo tempo, um retrato íntimo de si e uma fotografia da história recente do Brasil. A obra acompanha três décadas da vida do autor, desde a infância em Vicente Dutra, pequena cidade do interior do Rio Grande do Sul, até à vida adulta no estrangeiro (em Lisboa, Portugal). Acompanhamos, então, o autor/personagem a transitar do rural ao metropolitano, atravessando cidades como Frederico Westphalen, Santa Maria, Porto Alegre e Rio de Janeiro, além de Madrid e Lisboa, no exterior. Cada cidade indica um capítulo do livro, permitindo aos leitores e leitoras vislumbrar, simultaneamente, o nomadismo de uma trajetória individual e a história coletiva de uma geração: jovens empobrecidos que nasceram nos anos 1990, que foram beneficiados pelas políticas públicas de acesso à educação dos anos 2000 e 2010 e que enxergaram, ingenuamente, na educação formal uma possibilidade de ascensão de classe.
Ao longo desse deslocamento, que é tanto geográfico quanto existencial, o autor/personagem entrelaça memórias pessoais aos grandes eventos políticos e culturais que marcaram o país entre 1994 e 2024, lançando, para isso, mão de objetos como fotografias familiares, registros da imprensa, filmes, livros, músicas, desenhos animados e telenovelas como arquivos afetivos e históricos. Assim, revisita alguns dos principais acontecimentos do Brasil pós-redemocratização e do mundo contemporâneo, como os primeiros governos de Luiz Inácio Lula da Silva, Junho de 2013, o impeachment de Dilma Rousseff, a ascensão da ultra-direita global e a pandemia de covid-19.
Com uma prosa delicada e reflexiva, Marconi explora temas como a descoberta da homossexualidade em um ambiente empobrecido e rural, a busca por pertencimento em um mundo hostil, o amor pela arte, pela literatura e pelo conhecimento. Apesar da melancolia — mas também por causa dela, evocada desde o título pela palavra blue, que também remete às artes e à cultura pop que permeiam toda a obra —, o livro é um belo e dolorido testemunho sentimental dessa geração que cresceu sob a promessa de que os estudos poderiam ser um passaporte para a mobilidade social, mas que se deparou com um país em constante transformação, marcado por colapsos políticos e econômicos e uma pandemia global.
Ao lerem este livro, os leitores e leitoras mergulharão em um bildungsroman (romance de formação) — o célebre subgênero literário de origem alemã que narra o desenvolvimento físico, psicológico, moral e social de um protagonista, desde a infância até à vida adulta. 30 anos blue, no entanto, atualiza este estilo narrativo ao incorporar a experiência gay, brasileira, latino-americana, além de aludir a um cosmopolitismo que evoca, a todo o instante, uma estética da existência em meio às determinações da reprodução social da pobreza. Em sua estreia no gênero romance, Marconi apresenta um livro singular na literatura de língua portuguesa contemporânea.