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Esse silêncio que determina o almoço

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Este texto nasceu em Setembro de 2021, no Montijo. Deu os seus primeiros passos em Junho de 2022, em Joane. A partir daí e até Dezembro de 2023, tornou-se adulto entre Almada, Montemor-o-Novo, Alfafar e Sobralinho. Foi desenvolvido ao abrigo do programa de Bolsas de Criação Literária 2022 promovido pela Direcção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas. E foi escrito imaginando que o amigo e actor João Jacinto seria o seu intérprete.
esse silêncio que determina o almoço fez-se espectáculo e estreou no dia 18 de Outubro de 2024 na Casa da Música Jorge Peixinho, Montijo. A encenação foi de Miguel Branco, a interpretação de João Jacinto (ao qual se juntaram as vozes de André Alves, Luís Madureira e Maria Mascarenhas), a assistência de encenação e produção de André Alves, o som e o apoio dramatúrgico de Levi Martins, a luz de Maria Mascarenhas, o guarda-roupa de Ana Simão, a fotografia de Luana Santos (que também esteve presente numa residência artística realizada no Bunheiro, Murtosa, terra natal da minha mãe) e a voz e elocução de Luís Madureira. Uma produção da Mascarenhas-Martins.

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_sobre este livro

As famílias narram-se constantemente. Cada dúvida genealógica de uma criança curiosa é uma oportunidade para que a história familiar seja reescrita ao vivo e a cores. E isso nem é bom nem mau, é o expectável. Mas a factualidade nem sempre satisfaz. Há alturas em que só as possibilidades líricas da memória encontram resposta para as questões da infância e adolescência que inevitavelmente assombram e polinizam a maioridade. O trabalho autobiográfico a que o Miguel se propôs com esta peça é herdeiro dessas dúvidas, abraçando o conflito como terreno fértil para a escuta e para o diálogo.
As famílias, como qualquer construção social, variam no tempo e no espaço. Quando o Miguel escreveu esta peça, por exemplo, ainda não era pai; e em certa medida podemos ler esta obra como uma carta à sua futura filha. Por outro lado, o lugar que o Miguel ocupa na minha vida — talvez até sem que o próprio se aperceba — é o de um irmão mais velho que nunca tive; e agora cá estamos a ler sobre a relação com o irmão mais velho que ele efectivamente tem.
Em 2022, durante a nossa primeira residência artística para o que viria a ser esse silêncio que determina o almoço, descrevi o trabalho do Miguel enquanto autor, bem como o desbravamento dramatúrgico que ali levávamos a cabo durante a fase inicial da pesquisa, como produto de uma articulação de dois conceitos familiares ao teatro, embora não habitualmente justapostos: estávamos perante um naturalismo inverosímil. Vejamos.
É evidente, para quem folheia as peças do Miguel, a rejeição absoluta do estilo em nome do estilo, da elucubração retórica em nome da elevação literária; as pessoas são como são — ou como o Miguel as imagina —, falam como falam, dizem o que pensam e pensam como dizem. Ainda assim, há espaço para o implausível, para o onírico e distópico dentro das suas personagens. Há também, portanto, uma rejeição da necessidade absoluta da verosimilhança, que habitualmente impera sob a máxima da procura do sentido no decorrer de uma investigação em artes performativas. Talvez o maior dom do Miguel seja esse mesmo, o de caçar sem malícia, quotidiano fora, com a sua rede de borboletas, as incongruências, contradições, incoerências e autoficções que povoam a nossa existência, para depois, como prometido, as libertar entre as palavras com que reconstrói a realidade. É isso que aqui vão encontrar, esse olhar crítico e gentil.
Hoje, no dia em que escrevo este texto, nasceu o segundo filho do Miguel, o irmão mais novo. E se mais nenhuma poesia restasse, esta coincidência resgatá-la-ia das profundezas de uma embalagem de iogurte.

Pedro Nunes

_outras informações

revisão: Victor Negri
idioma: português
encadernação: brochura
formato: 14x19,5 cm
páginas: 96 páginas
papel polén 90g
ano de edição: 2026
edição: 1ª

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