O romance O testamento do alferes é a história de um garoto chamado Tião, que, com toda a sua sensibilidade e seu melindre, encontrou no amor a cura para a sua ferida mais profunda. Tião perdeu a mãe no parto e passou a maior parte da vida em colégios internos, lugares para onde seu pai, um fazendeiro de cana-de-açúcar em decadência, o enviou para não ter que lidar com a responsabilidade de criar um filho.
Por meio dos mistérios da vida, toda a vez que Tião sonha com a mãe, ele tem a certeza de que algo em sua vida mudará. Foi o que aconteceu quando foi enviado para o internato pela primeira vez, aos sete anos, e quando foi expulso dele, aos quatorze. Após o terceiro sonho, ele se envolve em um acidente e é falsamente acusado de assassinar um colega de escola. O pai, com receio da repressão política da ditadura militar brasileira e com medo dos próprios inimigos, o envia clandestinamente para a Europa. Tião então vaga pelas cidades da Itália até atravessar a fronteira e chegar a Paris no fim de março de 1968.
Na viagem de trem para a capital francesa, Tião conhece uma jovem franco-brasileira chamada Hélène, que o apresenta à vida cultural e intelectual parisiense. Entre muitos beijos, Tião faz pequenos serviços para sobreviver. No chão de uma fábrica, nos subúrbios da cidade, experimenta as dores do capitalismo. Na pia de lavar pratos do La Coupole, reconhece a solidariedade humana. Isto tudo enquanto testemunha o tecido da história europeia se transformar. A felicidade de Tião e Hélène dura até o jovem sonhar pela quarta e última vez com a mãe, e a revolta estudantil de maio de 1968 tomar conta das ruas de Paris.
Ancorada na ópera de rua sergipana conhecida como Guerra dos Lambe-Sujos e Caboclinhos, uma das mais importantes da América Latina, Matheus Batalha nos apresenta uma narrativa leve que entrelaça passado e presente, misturando o erudito e o popular aos anseios de futuro. Num mundo que ainda teima em não aprender com os próprios equívocos, este romance nos oferece uma reflexão sobre memória, trauma, família, política e revoluções, somente para destacar que, no fundo, nenhuma saga se tornará vitoriosa sem o amor. Com bem diz Tião: “nada que se possa ter, vai te fazer feliz, se não souber amar”. Esta é uma lição ainda necessária para o mundo em que vivemos.