Café para a alma
Ao acompanhar a força criadora de Nélida Campos vi que, ali naquelas noites, estava se forjando uma escritora de mão cheia. Cuidadosa com a escrita, Nélida tecia o fio condutor de seus contos com zelo, trazendo para nós o sabor do café coado no fim de uma tarde de outono.
Em O que falta é café, Nélida Campos entrelaça contos onde o café é muito mais que uma bebida: é personagem, cenário e testemunha silenciosa das vidas que cruzam seu caminho. Cada xícara servida é um portal para um universo particular, um fio que costura memórias, desejos e segredos.
Contos como “Incompleta” e “Café no singular” mostram a força criadora de uma autora em plena ebulição. A vida e o café se entrelaçam nas história mostrando como tudo pode se transforma em uma xícara de café.
Do calor abafante de João Pessoa aos recantos mais íntimos da alma, esses contos revelam como o ritual do café pode marcar um reencontro, acalantar uma saudade ou acender a centelha de uma nova paixão. São histórias de amores que esfriam e se reaquecem, de amizades que se fortalecem à mesa e de silêncios que falam mais alto que palavras, sempre com o café como pano de fundo.
Nélida nos presenteia com personagens que buscam refúgio, conexão ou simplesmente um momento de paz no aconchego de uma xícara quente. Atravessando gerações e estados de espírito, o café aparece como metáfora da própria vida, amarga, doce, forte e sempre transformadora.
Neste livro, descobrimos que cada xícara contém uma história. São segredos compartilhados, reconciliações feitas e portas que se abrem. Em cada conto, Nélida, habilmente navega entre o real e fantástico, conduzindo o leitor pelos mundos criados por ela.
O que falta é café é uma obra para saborear devagar, um convite a descobrir quanta vida cabe no tempo de coar um café e quantas histórias podem nascer no simples ato de compartilhá-lo.
Eduardo Augusto de Carvalho
Cientista Social e esposo