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A Pangeia,
O Sopro do Espírito,
O primeiro homem arcado e implacavelmente sozinho
criando, descalço, dáctilos, anfíbracos e deuses,
As tuas mãos seis anos atrás entre as minhas
invento —
todas no dorso do pensamento.
Entre o real e o inventado, o plástico e o sonoro, Imagens do dorso. Do fim desenha experiências de ruptura, mas também de insistência — trata-se do olhar por vezes fixo, por vezes vacilante que, na contramão das despedidas, incapaz de desviar-se por inteiro, retém a sensação de que as coisas acabam.
Em sua organização interna, a obra divide-se em poemas cuja escrita em série propõe lógicas de união e de semelhança (“Ecfrástica”, por exemplo, contém quatro retratos de temática distinta; “Patéticos”, embora heterogêneos quanto à forma, versam todos sobre o amor apaixonado; “Antropologias”, obedecendo a um mesmo princípio rítmico, investiga em cinco poemas o que faz do homem o homem) e versos mais incidentais e autônomos, porém nunca totalmente independentes, afinal o signo poético aqui apresenta-se como força capaz de restabelecer o senso da união perdida, senão ao menos organizá-lo. Dáctilos e anfíbracos atualizados na busca e na experimentação rítmicas tornam a palavra o centro dessa reconstrução inventada sobre as coisas que perecem: a vida, a memória, os afetos, as formas e referentes culturais, a própria distância e o espaço geográfico, também a violência, a náusea e a morte. Assim, neste livro recai o olhar sobre as costas daquilo que se esvai; possibilita, no entanto, em alguma instância (a da palavra) a permanência.