Lis Guedes, em seus escritos, escancara o que há de mais bonito para um psicanalista, seu inconsciente, estruturando sua linguagem e colocando algo dela mesma ali.
O que está vivo nela, narrado por novas experiências vividas com a maternidade, se emaranha com o passado, presente e futuro, mostrando a todos que o tempo cronológico é uma marcação arbitrária e reducionista de nós mesmas.
E, sim, o tempo lógico que ela costura com suas vivências de amor, luto, amizade, reconstrução de si, ampliação e expansão como o portal que abriu para seu filho, ela abre para si mesma e para nós, nos conduz a uma verdadeira sessão de psicanálise, na qual o analisando consegue dar contorno a sua angústia, indo e vindo, repetindo e elaborando, fiando-desfiando-refiando ou jogando fora o fio que não merece ser refeito.
Mergulhamos com Lis em suas experiências únicas por conta dos seus atravessamentos, porém, ao mesmo tempo, tão comumente presentes nas rotinas de recém-mães.
Lis desfia a partir da própria construção subjetiva o que a leva ali, percebo um convite em suas palavras para que outras mulheres possam desfiar por si a própria história e os próprios atravessamentos, possam fazer pedidos e entender seu novo espaço na construção mulher-mãe-filho-amante-amada-filha para que possamos fugir do que se espera dessa maternidade e desse lugar social da mulher.
Há um convite de celebração da existência nas palavras de Lis, um convite que ela mesma precisou se fazer inúmeras vezes e ainda bem que ela aceitou, todas as vezes, existir.
Raquel Petersen