Dizem que quando nasce a mãe, nasce a culpa. Dizem que os medos aumentam. Dizem que só as mães podem amar como amam. Dizem que só as mães podem cuidar como cuidam. Dizem que a força das mães… Dizem. Dizem muito sobre as mães, porém, apesar dos inegáveis avanços, ainda se ouve pouco as mães. Ainda se sabe pouco sobre as mães. Ainda se romantiza a maternidade. Ainda se esquecem de que somos, antes de mães, mulheres, filhas, amigas, irmãs. Talvez por tudo o que dizem o maternar seja tão solitário.
Cada história deste livro funciona como um espelho que representa, traduz e une muitas mães vivendo as suas solidões. Com palavras que acolhem, emocionam e, por vezes, fazem sangrar (esse sangue tão cheio de significados), Tamara nos lembra de que a maternidade é a experiência individual mais coletiva que existe. A mais inédita e rotineira. A mais ordinária e excepcional. A mais dolorida e incrivelmente deliciosa. Os relatos de parto, os percalços com a amamentação, as dores dos abortos, a alegria de ver os filhos felizes na singeleza do cotidiano são experiências da autora. Todos os temas do livro são dela. E são nossos também.
A riqueza da obra está justamente na identificação, na partilha. Com delicadeza e verdade, somos levados a pensar e a sentir junto com uma mulher se construindo como mãe e que se vê, frequentemente, precisando ser filha. Uma mãe que se lembra, durante o ato supostamente instintivo do cuidar, do desejo de ser cuidada. E que não se culpa por esse desejo. Ou se culpa? Podemos controlar esse sentimento? Poderíamos fazer mais pelos nossos filhos? Precisamos? Eles precisam? E se não conseguirmos? E a culpa? “Todos dizem pra mãe não sentir culpa” / “Não ter culpa é revolucionário”.
A revolução começa, como sabemos, na troca. Revoluções não surgem de vivências individuais, mas coletivas. Por isso, quando uma mãe diz sobre o seu maternar, independentemente do que dizem, a sua fala é sobre todos nós e, por isso, é revolucionária.
Renata Cândido