“Meio Amargo” é mais do que um livro. É um convite a habitar novamente os cheiros que saíam das bocas dos fogões nos rincões da nossa infância ou o gosto do que nos alimentava quando uma dor profunda nos dilacerava. Uma história sensível, que fala sobre a necessidade de provocar fissuras para crescer, de rompimento com os nossos maiores afetos como única forma de existência e até de sobrevivência.
Na linguagem de quem sabe manejar facas e faz da memória seu principal ingrediente, é assim que Sílvia Sibalde nos arrebata. Ela nos apresenta a sua Leila, que encontra numa caixa de documentos o caderno de receitas da mãe, Germana, após sua morte. Aos poucos, o leitor descobre que, dentro de uma relação complexa, a paixão pela cozinha fosse talvez o único elo que as unisse. Só que são as cartas encontradas neste mesmo lugar que revela um passado sobre sua família que ela não conhecia.
A autora não nos poupa e nos conduz para territórios conhecidos e desconfortáveis, das idiossincrasias da nossa própria origem que, sem saída, nos constituem. Assim, ela abre as tampas de suas panelas daquilo que nem sempre queremos experimentar, do que herdamos inconscientemente sem nenhuma permissão. Se a pancada for forte, uma comida é oferecida ao final. Não há angústia que não termine com conforto.
Uma narrativa escrita por mãos que dominam a arte da escrita e da cozinha. Como faz toda grande jornalista, o deleite do passeio é garantido, como Nina Horta, em “Não é Sopa”, ou “Afrodite”, de Isabel Allende. Uma obra construída para expandir os sentidos.
Sílvia é uma cronista do seu tempo. Em seu romance de estreia, encontramos um jogo entre passado e presente construído em prosa, cartas e receitas, temperos de uma novela instigante, daquelas que não queremos que acabe, recheadas de segredos, traições, traumas, tabus e perdas. O preço da misoginia e os conflitos entre gerações.
A maestria da obra está inclusive na quantidade, da dose certa, como sugere o título. Nada sobra nem falta. O texto nunca desanda, tão profundo, sofisticado e preciso quanto o olhar de grandes chefs, como ela também é.
Não se assuste se sentir o impulso de preparar um arroz de bacalhau ou uma torta de maçã numa tarde chuvosa qualquer. Apenas obedeça. São elas, Sílvia, Leila e Germana, que estão no comando.
Boa leitura.
Renata Bortoleto
Escritora e jornalista