Falaram que eu era mufino. Vivia em rezadeira e benzedeira, quando não em hospital e pronto-socorro. Tomava todo tipo de remédio e garrafada. Sempre imaginei que era porque tive asma durante toda a infância, mas com o tempo fui percebendo que meu quebranto era outro.
Não desconfiava que ser uma bicha preta era um problema, não era um problema pra mim, mas era para os meus pais. Eles pareciam ter muito medo, não de mim, mas das pessoas da rua, do que elas poderiam fazer. Às vezes, minha mãe me impedia de brincar com as outras crianças, dizia que era perigoso, eu nunca quebrei um osso
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_sobre este livro
Os contos de autoficção de Francisco Ricardo Lima Caetano nos levam por um passeio quase que atemporal sobre os ditames do que é viver em diáspora nas Amazônias. Neste território que nos faz e nos decompõe, somos inclinados a desaprender a ser quem somos.
Na delicadeza de uma costura própria, a cada página caminhamos sob os trilhos de um itinerário que permeia a negação e a afirmação do que se constrói como o ser uma bixa preta amazônida.
Nos corredores da memória sentimos a contundente asfixia de cada sílaba, em: “Eu não queria ser a bicha do bairro”.
Explorando o som de uma marcha consistente que ensina crianças negras e LGBTQIAPN+ a temerem suas próprias características, em cada conto a imensidão de dispositivos e formas de controle são nomeados.
São eles a casa, a escola, os bêbados das ruas, a universidade, a venda da esquina e a escola mais uma vez — todos estes lugares-pessoas são tratores imponentes na demolição das narrativas-existências de bixas pretas.
Mas há também as afetuosas resistências presentes aqui nas rezas baixinhas de dona Socorro, na recordação do amor vivido por dois homens pretos no Parque dos Bilhares, nas mãos de uma mãe e na curiosidade de Ismael.
Os parágrafos de Francisco constroem cenas que ativam todos os nossos sentidos. Que visibilizam corpos, histórias, opiniões e lugares ainda pouco anunciados no texto literário.
Não se restrinja a folhear estas páginas. Aprofunde-se nelas. Sinta os sabores e dissabores tão particulares da coragem que é a autoficção inovadora, potente e preta de Francisco Ricardo Lima Caetano.
Raescla Ribeiro
_outras informações
isbn: 978-65-5900-962-6
idioma: português
encadernação: brochura
formato: 14x19,5cm
páginas: 76 páginas
papel polén 90g
ano de edição: 2025
edição: 1ª