“… no decorrer da década de 1890, as elites, nauseadas pela relação das classes baixas com a jogatina, pressionam o poder público por uma repressão ao jogo do bicho. Se as corridas de cavalos e cassinos eram tolerados por representar o entretenimento de burgueses, o jogo do bicho deveria ser enterrado vivo, pois o rosto do jogador médio era preto, pardo, e sua diversão significava um alívio das tensões cotidianas. Reconhecer no outro uma humanidade que divide o mesmo gozo pelo jogo é, de certa forma, reconhecer o fim da escravidão e, portanto, do acúmulo de riquezas ao mais baixo custo possível. Sem essa possibilidade, as elites optam por destruir qualquer noção básica de qualidade de vida, afinal, se o fim da escravatura é um marco em qualquer país com passado colonial, imagine no Brasil, país para o qual mais se traficava escravos.”