A partir de sua experiência de 16 anos como palhaça em pediatrias hospitalares pela Associação Doutores da Alegria de São Paulo, Tereza Gontijo, a palhaça Guadalupe, oferece aqui um relato facinante sobre a potência do encontro. Do encontro entre a palhaça, os pacientes, os familiares e a equipe hospitalar. Do encontro entre olhares, subjetividades, afetos, riso e cumplicidade. E, para além da arte da palhaçaria, que é descrita com maestria por essa artista experiente, este livro traz um diálogo sobre a vida e a morte e, sobretudo, sobre o tempo. Tereza, ou melhor, a palhaça Guadalupe nos faz lembrar em seus escritos que o agora pode ser uma grande ocasião.
Com a sensibilidade poética que captura beleza até mesmo de ocasiões dolorosas, a obra relata casos emocionantes vividos em enfermarias pediátricas. Guadalupe e Tereza nos levam de mãos dadas para visitar esse ambiente de vulnerabilidade que é o hospital e presenciar a potência transformadora que o riso, a graça e a afetividade têm sobre a saúde humana. Podemos, como convidados, espiar pela fresta da porta do quarto o que acontece quando o leito se transforma em um picadeiro e a criança reacende a pulsão criativa, a partir do encontro com os palhaços. E o texto se torna ainda mais cativante porque Tereza, para além de artista, nos abre as portas de sua intimidade, revelando suas questões como mãe de dois filhos e mulher. Por trás da ribalta a vida continua e essas reverberações são trazidas ao leitor, enchendo a narrativa de camadas e humanidade.
Do riso ao soro é um convite para o público em geral e não apenas para os amantes e estudiosos da palhaçaria. Sua escrita nos conduz para um lugar de calor e aconchego onde se para para ler (e escutar) devagar, dando vazão ao pensamento… talvez à beira de um fogão de lenha, em Minas Gerais, terra natal que exala de Tereza. Uma prosa com sotaque, ritmo, fluidez, que nos fisga e faz pensar. Que espaço, nesse tempo acelerado e nessa era virtualizada, temos dado para nossos afetos? Quanto estamos de fato abertos para os encontros? O que temos feito do nosso agora? A vida não traz garantias, portanto viver é urgente.
Lud Benquerer