Ana Baldo se apresenta, enquanto escritora, como um farol que, por meio de seus livros, ilumina e esclarece o obscurantismo que persiste em nossa sociedade.
Sua primeira obra, Tem que fazer uma cruz pra ela, expõe os campos de concentração para retirantes da seca no Ceará, em 1932. Esta obra explora de forma intensa um capítulo obscuro e convenientemente apagado da nossa história.
Sua segunda obra, Sim senhora, dona Beth, é baseada em uma vivência real. O texto retrata as dificuldades de uma mulher que enfrenta a desigualdade social em suas diferentes esferas: econômica, de gênero e nas relações de trabalho.
O silêncio que se fez: impacto! Essa é a primeira definição para essa obra, que é um retrato brutal de dor. No desenvolvimento da obra, é evidenciada a saga de sobrevivência de uma família composta por mãe e filhos, que lutam com recursos escassos, tanto materiais quanto emocionais. Sobrevivem da melhor forma possível, criando uma fantasia de que o que possuem é, de certa forma, o necessário.
Percebe-se um baixo padrão de exigência material, pois estão acostumados com — quase — nada. No campo emocional, as demandas e necessidades beiram o nada: não se tocam, não se amam, não sorriem, não recebem nem pedem afeto. A vida já lhes retirou tudo. Interessante é perceber que a filha, protagonista, passa a vida sofrendo todo tipo de violência — material, social, sexual, educacional, alimentar e física — e que, em muitos momentos, sua fuga é o silêncio (mutismo seletivo) como forma de defesa. No silêncio da personagem principal percebe-se um grito de socorro, um pedido de auxílio. Contudo, as histórias se repetem dia após dia, sem que a dura realidade mude.
A autora cria uma atmosfera densa, que repercute de forma intensa e permanente. Ela tenta fazer o leitor perceber a realidade de milhões de crianças abandonadas e negligenciadas em uma sociedade na qual o silêncio e a invisibilidade são os principais recursos de sobrevivência. Ao produzir mais essa obra literária, Ana demonstra uma escrita afiada, com uma linha profundamente humana. Os conflitos retratados são desmembrados na tentativa de compreensão do que leva determinados indivíduos ou grupos ao total descaso e abandono da sociedade.
Vejo Ana Baldo, em mais esta obra, como uma fênix que ressurge, muitas vezes, de suas próprias lutas. Com força demonstra a necessidade de mudança e transformação.
Luis Fernando Cielo