A temática da saudade chegou até nós como marca emblemática do processo de colonização. Nosso imaginário, inicialmente, vai absorver as cantigas de além-mar e as narrativas de aventuras e de conquistas justificando, com certo orgulho, que o vocábulo só existe na língua portuguesa. Este, porém, é apenas um dos modos de ver essa história: o plano violento de ocupação incluiu, também, as hierarquizações e as desigualdades, fundadas no recalcamento das forças autóctones e heterogêneas, de múltiplas linhagens, que povoam nossos espaços simbólicos.
Questionando a subserviência, o modernismo de 1922, operando pelo avesso, reivindicou outra língua, dizeres, vocábulos, modos de ver e de sentir, favorecendo e liberando a literatura e as artes para usar a herança como dispêndio e usufruto: sobre uma escrita dita “original”, as variantes se inscrevem metaliterariamente, entendendo as formas da repetição e da paródia, por exemplo, como crítica e diferença ou crítica da diferença, que, por sua vez, passam a configurar-se em metacrítica e experimentação.
Em meados do século xx, Augusto de Campos escreve o poema visual “Pós-tudo” já indicando a consciência da globalização, o advento e a exploração da tecnologia e os paradoxos de um mundo pós-nacional: em primeira pessoa, ao poeta extudo — depois de tudo e ao mesmo tempo situado na própria descrença de que efetivamente exista o “tudo” —, permaneceria “mudo”, em releitura política dos efeitos retardados da saturação: a mudez é a própria constatação de que não sobraria algo original ou criativo para escrever ou dizer.
Entretanto, enquanto o excesso de registros acena ao precário, revisitar, derridianamente, a mudez como sintoma e o verso extudo em diferença com “estudo” traz outra possibilidade de entender a escrita na cena contemporânea. É o que Bianca Mayer apresenta em Variações sobre a saudade: a não originalidade e a poesia pós-tudo de Patrícia Lino. Assumindo o propósito de estudar obras literárias calcadas na apropriação de outros textos, entendendo-as como não originais, nos dá a ver a poeta Patrícia Lino, lendo e relendo a poesia portuguesa, em repetição e deriva, o que sugere a continuidade e pervivência da própria literatura, agora em perspectiva decolonial.
Mayer leva adiante uma discussão teórica a respeito de obras que, por recusarem sua própria finitude, podem manter-se em constante variação, desenhando trajetos que implicam, simultaneamente, em revisão, releitura e rasura.
Rita Lenira Bittencourt