Urban é um personagem poliforme, adere a diferentes classes, gêneros, nacionalidades. Incorpora um bilionário que passeia impune sob o sol grego, descansa no corpo de um artesão com vida simples, se agita em uma educadora autoritária, um soldado israelense que posta stories ou num figurante de Fellini que despreza o cinema italiano.
Urban somos todos nós. No país da miséria, do meme, do fundamentalismo religioso, das sucessivas crises éticas e estéticas. Contudo, por vezes, o narrador procura o nosso melhor. Inspira-se na crônica de Clarice ou na anticrônica de Victor Heringer, rememora o melhor do cinema mundial, Fellini, Jim Jarmusch, Kaurismäki.
A leitura é convidativa, acompanha-se com prazer o seu fluxo, ao mesmo tempo desconstrói a ideia que a crônica sempre trata de temas leves, prosaicos. O gênero é breve, versátil, também pode apreender do cotidiano aspectos grotescos, avassaladores.
Urban não gosta da palavra esperança, mas quem escreve espera, deseja a recriação do seu texto em cada futuro leitor. Encontre Urban, depois de duas horas de leitura serás outro, bom, canalha, justo, feliz ou inconformado. Afaste-se um pouco das redes e caminhe, reflita. Ignore o relógio do fim do mundo, temos algum tempo, a arte é nossa potência.