Em lágrimas, concluí a leitura de Uma tragédia latino-sertaneja; já não me lembrava do último livro que tinha me feito chorar. Esta obra, mais do que um membro supurado, mais do que uma angústia marcada em pedra, é a pura poesia dos que sofrem enquanto buscam a mínima dignidade possível: ser quem se é.
Fellipe Fernandes F. Cardoso conta a história de homens que vivem pelas sombras, escapando entre cômodos mal iluminados, fugindo dos holofotes que se dizem masculinos, sertanejos e tradicionais. Conta a história de como é possível encontrar a si mesmo, ser encontrado e, ainda assim, continuar invisível e perdido.
Uma das características mais deslumbrantes de Uma tragédia latino-sertaneja é sua ambientação. Os cenários, a terra levantada pelo vento e a cultura que apresentam com habilidade inegável uma parte do Brasil que pouco tem lugar nas prateleiras da literatura nacional. Por isso também Fellipe é um grande autor, porque faz do terreno esquecido um mundo peculiar habitado pelos personagens mais cativantes, contraditórios e profundos. Com absoluta destreza, o escritor monta e exibe imagens vívidas, quase palpáveis, que se juntam a um vocabulário delicioso, tornando a experiência da leitura uma criação sensível, cheia de texturas e fluidez.
Uma tragédia latino-sertaneja é um livro sobre solidão, sobretudo a solidão mais pesada que existe: a de não poder compartilhar o que temos de mais significativo. No entanto, é um livro sobre amor, sobre entender o que é essa coisa antes nunca provada, sobre o amor pelo impossível, sobre amar o injustificável.
Este é um livro para todos que desejam experenciar tempestades interiores sob a condução segura de um escritor que sabe mover as palavras. E poucas vezes na vida me senti tão movida por um livro.
Jarid Arraes