Afeita aos dicionários, tive o impulso de buscar a definição de “saliva”. “Quando o corpo está com falta de água, a boca fica seca, manifestando a sede” é uma das definições-funções na Wikipédia. Ao lado da “solvente”, “lubrificante”, “gustativa”. Mas me chamou a atenção a referência aos animais que lambem as próprias feridas, conferindo à saliva atestada capacidade curativa. E também a relação com a “estimulação” (e aqui me detenho sobre o ato falho: quando fui digitar, achei que a palavra era “excitação”).
Enquanto relia Salivas, de Emilene Gutierrez, dei um play na música “Hoje eu não vou dar” de Valesca Popozuda e me lembrei das vezes que vi o trabalho ainda em processo e do quanto esse corpo feito pura materialidade em cena vibra em intensidade, excitando nossas papilas gustativas e pupilas visuais.
Colocando-se como matéria entre matérias, misturado, solvido, fagocitado, esse corpo-tela também se presta ao olhar. Sacrificialmente? Em 2001, um homem responde a um anúncio de jornal se candidatando para ser o prato principal no banquete canibal de Armin Meiwes. Se eu me ofereço para ser devorada por você em uma ceia de carne e vísceras, sou sujeito ou objeto?
Outras “inversões” durante a peça seguem destituindo hierarquias, de forma que entre o cu e o olho, é só uma questão de como posicionar o corpo no espaço ou os sentidos em uma obra de teatro.
Esse corpo, alegremente ativo em sua sujeição, não só dá como distribui em fartura abjeta, obscena, escatológica. E, aqui, escatológico em seu duplo sentido invocado na dramaturgia, afinal, é sobre salivar por conteúdos sórdidos mas também sobre essa estranha camada sacra, relativa “às últimas coisas, a consumação final de tudo”, em que Emilene devora-se a si mesma em um íntimo apocalipse.
Janaina Leite