Só depois de atravessar as fronteiras da intimidade é que se pode adentrar o quintal. Esse chão poético, tão caro a um certo Manoel, imana a meninice de alma, neste caso, de uma jovem poeta paraibana.
Beatriz Tavares delineia em seu livro de estreia a percepção de dentro sobre a mudança e seu revés numa voz poética recém-saída do pé. Em três partes, as palavras convidam ao passeio por um roteiro que inicia na contemplação do céu aberto, chega até a semente e perpassa as estações. Além de figurar na divisão do livro, o caminho do todo ao específico indica as alternâncias do eu lírico na obra.
Há versos-máximas, como: “trai aquele que acreditou/que colheria o que plantou” e “vejo-me no outro/pois sou o outro que vejo”, os últimos, dotados de um espelhamento duplo saltante aos olhos dos leitores mais atentos. Noutros momentos, prevalece a particularidade, como em o passado, o júbilo e o presente: “tenho vinte e dois anos/não sou um mito/e muito menos exemplar/não sei de muita coisa/mas não sou flor que não sabe brotar”.
Em certos poemas, ser dos arredores pode encurtar a estrada rumo ao intento de toda boa leitura: o reparar. Reparem, conterrâneos, as cores de uma cidade acinzentada à revelia. De acordo com o eu lírico, “o progresso tem dessas/de nos fazer querer regressar”, seja à terrinha, como em saudade incoerente, seja à fantasia, no desfecho encantador de testemunho de domingo, ou até a referências grandiosas do cânone literário. O regresso na escrita da paraibana são folhas caídas em volta da árvore: servem ao solo mais do que à copa, isto é, ao contrário de incitar um retorno, geram a transformação.
Beatriz demonstra em quintal ter fôlego para, na esteira de Alice Ruiz, Débora Gil Pantaleão, Regina Azevedo e diversos nomes de excelência na poesia, construir uma casa fabulosa no coração da literatura brasileira contemporânea.
Naíla Cordeiro