Há livros que chegam como um sopro delicado, e há aqueles que chegam como um estilhaço de vidro. Por si só, estreia literária da jovem escritora Bianca Parron, tem essa dupla face: por um lado, frágil e transparente, mas, por outro lado, também cortante e impossível de ignorar. Neste livro de contos a autora nos conduz aos labirintos de experiências limítrofes em que são abordados temas como violência, silenciamento, loucura, luto e os desencontros do amor.
A escrita feminina perfurante, direta e sensível de Por si só não é apenas disruptiva, mas traça rotas de cumplicidade com suas leitoras e leitores. Bianca nos conduz por narrativas intensas que se movem entre memórias, afetos e dores. Os contos nos levam a atravessar um vitral indiscreto, expondo zonas íntimas da vida cotidiana até então vedadas ao olhar comum. Suas primeiras palavras suaves, pueris, inocentes aturdem quando se encontram com os golpes inesperados do abuso sexual infantil, do delírio, da inadequação, da equivocidade dos amores vividos e das distorções de realidade.
As redomas que se apresentam neste livro – todas feitas de vidro – , seja para a proteção ou para a denúncia de suas personagens, erguem-se já trincadas e frágeis. São paredes de vidro que funcionam como um terceiro cenário entre a autora e seus leitores. A cada visada por entre as trincas deste invólucro vítreo, vemos o caráter vertiginoso e desconcertante da realidade. De um jogo de luzes e sombras de uma primorosa tessitura literária, deste livro não deixam portanto de brotar imagens carregadas de um lirismo transfigurador, revelando silêncios abafados e emoções que resistem mesmo quando ameaçam se estilhaçar.
Cada conto pode ser aqui lido como uma pequena redoma de vidro em que se abriga uma experiência intensa, guardada em segredo, até o momento em que o vidro se estilhaça e começamos a suspeitar do que realmente vemos.
Por si só anuncia assim a escrita de Bianca Parron como parte de uma nova geração de escritoras brasileiras que se arriscam a narrar o que muitas mulheres não conseguem ou não podem falar. Assim como outras vozes emergentes da literatura contemporânea brasileira, a autora paranaense traz com esta obra inicial a afirmação de uma potência literária capaz de tocar quem se dispõe a atravessar as redomas que envolvem as nossas histórias malditas.
Profa. Dra. Regiane Collares
Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Cariri