quando li o livro de profânia tomé, depois de longas ressalvas sobre o que se apresentava, olha aqui, não é bem assim do jeito que você tá pensando – peraí, tem aquilo também – foi como sair para um date. dei match, rolou aquele interesse pré-papo, flertei, nos falamos a sério as intenções pretendidas, combinamos. poderia ser a qualquer hora, menos às seis da tarde. encontramo-nos: o livro estava lá, numa sedução meio dúbia, no intento do mistério, no desejo do desleixo, fazendo um cu doce disfarçado de charme, despretendido de me querer. mas ali descobri os gostos, os desgostos e os esgotos. coisas acesas, delirando e queimando na cama, por dentro do vestido, nos loucos cabelos, nas unhas pintadas, nos traços do papel, nos tragos da fumaça, consumidas nas cinzas e fagulhas do ardor. é um livro sobre amor, sim, não vou mentir. mentira seria dizer que não amamos e nem mais amaremos. acho que ciceroneamos as afetações da vida tentando captá-las, dominá-las, quando tudo que capturamos é o que não conseguimos fazer com elas. em tanto pavor de amar e medo de se dar, nos trincos das portas abertas do peito, é piegas talvez admitir que os dizeres a que nos destinamos são quase todos sobre amor. da sofrência, paixão, tesão, solidão, sofreguidão, esfregão de água sanitária para tirar você de dentro de mim. nada expurga, apenas consuma. choramos, gozamos, rimos, abraçamos, beijamos, lambuzamos, execramos, afetamo-nos. são poemas sim, também porque você não gosta deles. podem ser poemas sobre você, talvez alguns podem até para ti ser, outros para outros, outros para ela, mas não importa se você gosta de poemas ou desses – nem todos bem te querem ou mal te querem. mas sobretudo porque eles bem quiseram ser escritos, e que fosse profânia a escrevê-los, roçando, afetando-se com todos os porquês que sabe ou não sobre o gostar.
noah mancini