Mais do que uma simples linha desenhada em um mapa, a fronteira é babélica, móvel, um lugar onde realidade e fantasia se confundem. Os fronteiriços são apátridas na própria terra, seres paradoxalmente ameaçados e protegidos pela violência, vivendo em um eterno entrelugar: o estrangeiro vem de fora ou os estrangeiros somos nós mesmos? A terra sangra ao seu redor. As chamas avançam pelos campos, originando riqueza, mas destruindo vidas. Este é o cenário conturbado e fervilhante no qual ocorrem as histórias presentes em Onde bala tem nome.
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_sobre este livro
Uma fronteira nos remete a uma ideia de divisão: o lado de cá e o lado de lá, o nós e o eles. No entanto, a fronteira que separa Ponta Porã, Brasil, de Pedro Juan Caballero, Paraguai, é seca, o que, em sua mais aparente contradição, a torna mais fluida, sem barreiras visíveis. Há, nessa região, uma confluência entre dois mundos que Onde bala tem nome busca reconstruir ao coletar, fragmento por fragmento, pequenas imagens de um mosaico feito de contos. De um lado, apresenta-nos o mundo do primitivo e do ancestral em suas mais diversas facetas: a natureza que se manifesta em toda a sua violência; as relações históricas de opressão, exploração e conflitos; os encantamentos e as crenças sobre o desconhecido e o divino, que nos prometem algum grão de esperança em relação ao porvir. Do outro lado, nos introduz ao mundo do contemporâneo em um contexto marcado por um ambiente de tecnologias falhas, incongruências entre modos de vida distintos, linguagens híbridas e um latente espanto por um local que, sob a perspectiva do medo, tem trocado sua coroa de princesa dos ervais pelos grilhões do narcotráfico.
É com um olhar perscrutador e crítico que Jonattan Castelli nos apresenta essa fronteira, sem deixar de transparecer sua admiração pela riqueza cultural desse lugar. Forasteiro em terra própria, Jonattan demonstra lucidez ao abordar temas complexos como a sub-humanização dos indígenas e escravizados, o avanço do agronegócio, a pedofilia e, claro, o tráfico de drogas. Ao mesmo tempo, mostra toda sua sensibilidade ao dar uma voz genuína às suas personagens, por vezes lançando mão do vocabulário Guarani-Kaiowá e de narradores infantis que nos permitem vislumbrar o talento de sua escrita e de sua percepção aguçada desses dois mundos que se chocam nos limites da fronteira. Onde bala tem nome é um convite à reflexão social e a uma literatura brasileira corajosa e vibrante, não nos permitindo vislumbrar uma divisão clara entre o real e o imaginário.
Oz Iazdi
Professor de Economia da UEMS
_outras informações
isbn: 978-85-7105-373-1
idioma: português
encadernação: brochura
formato: 14x19,5cm
páginas: 116 páginas
papel pólen 90g
ano de edição: 2025
edição: 1ª