Querida,
acabei de ler este livro. Os poemas, sinergéticos, estalam a pele “em alto-relevo” e, ainda, são bons de prosa. Lê-los é acompanhar um traçado no chão de terra que escreve, na poeira vermelha, histórias do cerrado mineiro e do asfalto paulista. Histórias secas e férteis que nos afetam como “as gentes” que brotaram de lá.
É bem um livro de encontros de passagens, aqui se encruzilham diferentes gerações da família, sotaques, desejos, cidades. A criança que não conheceu tristeza, mas que cresceu chorando o choro de quem lhe deu o que não teve: Minha mãe começou a trabalhar / quando era criança / e não teve infância / porque decidiram que pobre / tinha mais é que sofrer.
Encruzilhada onde desembocam e iniciam caminhos, num tempo que espirala na reescrita das gerações. As vivências pessoais se revelam em sua amplitude social: na experiência coletiva do controle e da normatização do desejo. O livro é um exercício para: aprender a se apropriar / a fazer o usucapião do corpo expropriado / é reaver o si que
[sabe
[sobre
[viver.
Diz dos não ditos, do tio bixa, melhor pessoa do mundo e assunto proibido a quem restou gozar na mingua e olhar pelos próximos. Com a benção de Exu – que acertou o pássaro ontem com a pedra que lançou hoje –, esse amor discriminado, feito doença, foi quarado ontem, pelo gozado hoje no entre de duas mulheres amadas.
Um passado que se completa agora, na herança recebida, e que se faz futuro pela herança escolhida. Mesmo quando a depressão espreite à porta como um parente com quem se divide a casa. (…) porque a correnteza das vidas que ocupam a gente desde cedo / faz o corpo querer desaguar. São muitos os versos que marcam.
Aqui se escrevem poemas de amor, esse bálsamo ardido que derrete órgãos e departamentos. Faz dizer com outra língua enfiada na boca; que em suas re-voltas úmidas, re-voltam a vida em poesia, “numa pele porvir”.
Terminei o livro agora, ao contrário do sistema que denuncia, ele é bom de serviço, segue na boca, no gosto vermelho de ferro das minas
Gerais.
Juliana Guida