Poderia ser nome de uma música punk, Mamãe é um cão raivoso, que também é um grito, um clamo, um reclamo, uma confissão, autoficção, um pedido de socorro, um uivo, uma poesia, sobretudo, um manifesto. Tornar-se mãe assusta, em um mundo que exerce há séculos o controle sobre o corpo da mulher. E alguém escuta o latido do cão se não para exigir seu silêncio?
Reivindicar nosso corpo e nossa capacidade de decidir sobre nossa realidade corporal nunca foi tão urgente. Estamos em 2025 e muitas outras já nasceram e morreram nessa constelação. A violência é sistêmica, além de ser uma potência econômica. Mas, para além da denúncia de qualquer sistema de opressão, Mamãe é um cão raivoso é produção de intensidade, é elaboração poética da existência para além do trauma.
Devemos lembrar que o cão que late também abana o rabo e tem a capacidade de desejar.
E se “ser mãe é parir novas formas de ser”, a decisão de ser quem quisermos nesse novo nascimento é nossa. Ser mãe é um ato político, de afirmação e de resistência.
Precisamos fazer ecoar outras narrativas, podemos nos recusar a chorar baixinho no quarto escuro enquanto todos dormem. Assim como Júlia faz poesia com a sua existência. Não estamos aqui para correr em volta do nosso rabo, repetindo o eterno retorno do idêntico. Estamos aqui para fazer barulho, desbravar novas possibilidades de afetos, menos familistas e nucleares e mais expandidas e comunitárias. Podemos aprender a ser matilha.
A raiva que queima também é capaz de nutrir e de guiar os cães na escuridão.
Marcelle Louzada
artista, psicóloga clínica com aprofundamento em saúde mental
materna, fundadora do coletivo de mães antiproibicionistas “Segurando as Pontas”.