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Mãe Preta

Disponibilidade: Brasil/Europa

Num Brasil em lenta retomada democrática, mas ainda assombrado pelo fantasma do fascismo, um homem retorna à cidade de Olinda, onde nasceu, para enterrar a mãe e desenterrar o passado, reabrindo chagas, cicatrizando traumas. Aos sons dos clarins do Carnaval que se aproxima, a redescoberta de uma antiga paixão reacende o pavio de uma rixa de infância, demarcando a polarização de um país dividido entre o uso da palavra e o da pólvora. Estrangeiro na própria casa, contará com a sabedoria da sua Mãe Preta, a “velha índia” que o criou enquanto a outra mãe ninava os livros de filosofia no braço. A Mãe Preta analfabeta, filósofa do seu jeito, descendente dos caetés, povo de luta e canibal, e que fez do curumim amarelo um homem feito. Um homem feito também para a luta.
Mãe Preta é também o retorno do escritor Álvaro Filho a Olinda, onde cresceu, cenário de Meu velho guerrilheiro, livro premiado como melhor romance de 2017 pela Academia Pernambucana de Letras.

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_sobre este livro

O regresso de Álvaro Filho à Olinda natal — com as suas praças, veredas inclinadas, frevo na rua e arvoredos à mesma altura da cruz das igrejas — faz-se com uma história policial que se dilui numa espécie de evocação demoníaca dos espíritos locais. De quem somos filhos, nós que somos filhos da terra? Da mãe filósofa ou da Mãe Preta? Do pai na Argélia ou das ruas do sul de Itália?
Para isso, a viagem faz-se de Olinda para Nápoles (e Ercolano e o Vesúvio), e a evocação do género policial lembra tanto o ritmo frio de Dashiell Hammett quanto certa melancolia de Chandler, mas nem Sam Spade nem Marlowe, suas criaturas, aparecem nestas linhas. Nem podiam.
Neste livro, a temperatura das personagens femininas é muito superior e elas dominam tudo o que é território: mesa e memória, cama, balcão de bar, investigação policial, arqueologia e vulcanologia, o Carnaval de Olinda (na memória, “um carnaval em sépia”), o Brasil da ditadura (e também o Brasil tomado pelos neopentecostais), a iniciação sexual, a fragilidade, as batalhas perdidas, as fraquezas confessadas, o sentido de justiça, a necessidade de reparação, a valentia. São perfeitas como personagens; temíveis se forem de carne e osso, com o seu olhar treinado.
Álvaro Filho diverte-se (e pede para o acompanharmos) com o seu cruzamento na diáspora, nunca esquecendo os amigos, que entram como figuras leais e letais, falhando sempre, como lhes compete, assistindo ao levantamento das lavas que descem dos vulcões. Nesse Brasil em que “um dia, os pobres só terão os ricos para comer”, ele nunca esquece o azul do mar, a voz das ruas antigas, os álcoois profundos em mesa de bar. Porque o inquérito de Álvaro ultrapassa em muito o inquérito policial que abre e encerra a história.
É maravilhoso de audácia e de melancolia. Ele negará a melancolia, como um brasileiro antigo, mas ela pega-se aos dedos em cada página. Respira por nós, toma conta de nós. Mas deixa sempre aquela pergunta fatal: de quem somos filhos, nós que somos filhos da terra?
Que maravilha.

Francisco José Viegas
escritor e editor

_outras informações

ISBN: 978-989-9348-40-0
revisão: Victor Negri
idioma: português
encadernação: brochura
formato: 14x19,5 cm
páginas: 186 páginas
papel offset ahuesado 90g
ano de edição: 2026
edição: 1ª

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