Loriane veio às costas do boto tucuxi. é uma obra que explora o limite e a tensão entre os sentidos e as invenções da própria vida. Uma existência nua e vivida ao acaso de paisagens tropicais e paradisíacas. Mas será tudo só paraíso?
Nestes contos, transparece o gume incisivo de uma respiração poética herbertiana, a inquietude existencial de Camus e o estupor dorido de Lispector. Porém, a grande mestra é a realidade. As histórias pertencem ao povo caboclo, aos ribeirinhos do Tapajós e do Arapiuns.
Quem conta a história passa em fala branca mas periférica, caboclando as vozes de Dona Martinha de Suruacá, do Sô Hipólito de Muratuba, do Senhor Joaquim de Maguari… E Loriane, existiu ela? Existe?
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_sobre este livro
Mirar Loriane às costas do boto é lançar-se num movimento de rotação que exige fôlego — especialmente quando atravessados por um mundo às avessas. Este livro, escrito há vinte anos, quando o mundo ainda era mais mundo, repousou sob os igarapés, imerso numa suave sedimentação. Agora, desperta com a força de um boto que se atira aos céus — numa dança mais livre e delirante.
A sua poética desconcertante e provocadora nasce da vastidão da floresta Amazônica e das vivências transatlânticas que o autor se atreveu a sentir em corpo e febre, entre 2004 e 2005, junto aos ribeirinhos do Tapajós e do Arapiuns. No gigante dos trópicos, Júlio do Carmo Gomes desafia-se a construir uma cartografia pessoal, fixando as vibrações da travessia com coragem e transgressão. Décadas depois, essas memórias ressurgem como visões distorcidas no espelho da escrita: o delírio e a lucidez, o sonho e a matéria bruta. Se a Amazônia profunda foi um transe luminoso, vivido na presença dos lugares e do povo caboclo, estas histórias são o seu negativo: sombras projetadas na memória, vislumbres de um universo onde o real e o fantástico se confundem. Um território onde a realidade se dissolve na vertigem, e o homem se descobre, de repente, estrangeiro dentro de si.
Em sete contos ritmados e vigorosos, tão cruéis quanto magníficos, o autor-caçador prende-nos numa rede de inquietações e experiências-limite. Testa-nos diante do emaranhado de dilemas existenciais, mesclados com cosmologias indígenas, cores technicolor e cheiros da Amazônia. Cada conto é uma chave para as complexidades da vida nos “tristes trópicos”, explorando não apenas a brutal beleza e a vitalidade das terras férteis, mas também os ecos de uma modernidade jamais superada e o giro crítico da colonização.
Com a faca nos dentes e uma pulsão criativa que explode em subversão e desejo, o autor nos arrasta para uma terra em transe, onde a violência estomacal se transmuta em alegoria. Inquieto, entrega-se à premissa de Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas: “O real não está na saída nem na chegada, ele se dispõe para a gente é no meio da travessia”. É aqui que a escrita de Júlio do Carmo Gomes mais se destaca: na ousadia de captar enigmas e na entrega a um pensamento que abraça obsessivamente, equilibrando razão e poesia. Ele compreende a realidade como uma construção e mergulha na tontura desse percurso. É impossível não se surpreender com esta transa-atlântica, nem permanecer indiferente aos mistérios de Loriane. Com sua fluidez própria, ela expande-se e contagia — enfrentando as dores que as travessias inevitavelmente trazem.
Ângela Berlinde
_outras informações
isbn: 978-85-7105-296-3
idioma: português
encadernação: brochura
formato: 14x19,5 cm
páginas: 100 páginas
papel polén 90g
ano de edição: 2025
edição: 1ª