O olhar perspicaz e silencioso de Mariana Bittencourt Moraes mapeia a cidade coletando histórias escondidas nas frestas do cotidiano. Como uma flâneuse, caminha pelas ruas com seus passos delicados anotando em um caderno pautado todos os detalhes de uma cidade que arde. São muitos os que habitam o universo de Londrina Babilônia em chamas.
As personagens marcam presença com seus nomes próprios. Aos poucos, desvelam-se, mostrando a verdadeira face. Mariana nos guia por entre os contos revelando histórias que oscilam entre a delicadeza — muitas vezes, aparente — e a violência, que nos suspende a respiração.
Um universo violento e intolerante arquitetado com maestria pela escrita de Mariana Bittencourt Moraes em que os detalhes, sutis, às vezes, escancaram uma realidade em chamas que se quer calar, que a cidade cotidiana encobre sob um alvo véu de pureza. Assim, nesta babilônia, o patriarcado, e todas as suas investidas, se espraia como praga sistêmica na vida de Ana, Gilberto, Janaína, Luísa, Tânia, Barbie, entre tantos outros.
Os contos de Londrina Babilônia em chamas são marcados por uma escrita fluida, que nos captura logo nas primeiras páginas. Para escrever sobre a dor da violência — física, psicológica ou emocional —, sobre o amor, sobre as neuroses, sobre os horrores, sobre os mistérios que pairam na cidade, Mariana também se apropria do humor, elegante e sutil, por vezes, cínico, que nos provoca um sorriso de canto de boca.
Na construção da narrativa, destaca-se o ritmo que os diálogos, bem-construídos e pertinentes, imprimem ao texto. Muito evidente, por exemplo, no conto intitulado “Ana e Luísa”, em que a tensão mediante um provável ato de violência, que aparentemente não acontece, é marcada pelos diálogos rápidos.
Entre o sadismo e o amor, entre o medo e o afago, entre o bizarro e o que se supõe uma normalidade imposta por uma sociedade da aparência, surge, enfim, uma “dama do fogo”, com o singelo nome de Barbie, que nos surpreende e liberta num ato final. Assim, é inevitável ouvir, lá do fundo do inconsciente, uma antiga balada de rock and roll nos acalentando enquanto lemos o livro.
Karen Debértolis