Linguagema é um livro que te obriga a aprender a ler de novo. Não porque inventou uma sintaxe nova. Não porque a palavra metáfora transporta ilusões de conteúdo. É porque Linguagema nos faz os pés em ferida. É porque Linguagema nos faz os pés em ferida andando sobre veredas de sal. É porque Linguagema faz a letra coincidir com o corpo, e tudo dói. Ainda que contra a tristeza, ainda que contra a solidão, ainda que alegres, aprendemos tudo de novo de novo e de novo ainda dói.
Quando a letra coincide com o corpo, um trânsito de sentimentos emerge da folha fina de papel. O poema não oferece mais a garantia da página em branco, do indizível, do silêncio do beco, do quarto escuro mesmo que dia seja. E isso não é simples, pois perdemos o pronome pessoal do caso reto e já não podemos dizer eu (leio, penso, existo etc. etc. etc.). Este livro é que nos lê, nos ensina outros nomes, palavras esquecidas e palavras em devir. Palavras vão e saltam e vem e mergulham e se chocam e se unem na falta. Faz a gente sair catando caquinhos de si — alguém trouxe cola¿
Dividido em sete seções, cada poema torna-se uma chance que a gentchy ganha.
Estratagemas de dizer:
“não
não é isso
não é isso ainda
também não é isso
nem aí
ali também não
também não do lado de lá
aqui mais perto também não
ainda não
ainda não isso
também não aquela outra coisa
menos ainda esta
talvez essa mas não
e menos ainda isto”
Ensaios de si-mesmo na palavra outra, de mundos outros, de quem escreve outre. Quem¿
Ensaios de língua, de linguagem, de gema de pedra preciosa e imprecisa, de gema mole dourada escorrendo escapando de qualquer possibilidade de definição. O que se propõe aqui só pode ser descrito com muita descrença de acerto como uma experiência, com todas as exigências melindrosas que a palavra experiência nos traz. O convite está feito.
Tarsilla Couto de Brito, poeta e professora de literatura