É difícil dissociar da poesia a tensão que lhe constitui. Neste, que é seu quarto volume de poemas, Jonas Leite perscruta, justamente, as ambivalências que nos cercam, imergindo na dinâmica primeira que é sermos, a um só tempo, seus criadores e suas criaturas. Nas páginas deste livro, encontramos uma voz poética marcada por uma fricção de forças que deixa patente seu caráter dúbio, desde a eleição do tema que lhe serve de eixo condutor: a amplidão do mito.
Se é possível afirmar que a narrativa mítica acompanha o homem desde os tempos mais remotos, carregando consigo uma verdade específica e uma potência criativa incessante, aqui, ela reafirma seu caráter atual e de perpétua construção, ao entrelaçar o sublime e o banal, o antigo e o contemporâneo, cantando “[…] para o amanhã/ com a voz do ontem”. Tudo isso numa dicção que, meticulosamente concisa, quase impessoal, confirma seu caráter humano quando vacila, desdobrando-se ora numa ironia mordaz, ora num apelo ao íntimo, mas abrindo-se sempre a um universo de reinvenções, no qual cada palavra é tomada como um espaço infindo de dúvida e revelação.
Nesse sentido, é instigante a escolha das Latitudes, que dão título à obra, já que o termo, derivado do latim latus, que significa “largo, amplo”, corresponde à tentativa humana de, por meio de linhas invisíveis, tentar abarcar a vastidão do mundo; não seria esse, afinal, o esforço basilar da poesia, que, por meio da linguagem, busca comportar e — por que não — ultrapassar a realidade?
Nestas páginas, o leitor orbitará por mitos de cosmopercepções diversas, ao lado de uma voz que guia na justa medida, sabendo sustentar a beleza do enigma, à medida que nos enlaça ao prazer paradoxal de encontrar conforto diante do abismo. Em cada verso, mais do que a contemplação do belo, temos o questionamento, a dúvida golpeando e nos incitando a manter os olhos atentos no jogo que se estabelece entre a realidade e a necessidade de fugir dela, de mergulhar no fabular e de conseguir, nesse mergulho, a iluminação necessária para melhor avistá-la, afinal real e fantástico caminham em paralelo e a poesia parece ser justamente o estalo que se dá no momento em que se cruzam. Ao percorrer mitos ancestrais, figuras tornadas míticas e os mitos pessoais que habitam seu íntimo, o leitor trilha também esse encontro, guardando consigo a necessidade de manter “O mistério/ Eterno/ De acreditar”.
Em suma, estes poemas não oferecem respostas: abrem fendas. Cabe ao leitor aceitar o convite de caminhar por essas latitudes que, moventes, esboçam-se como mapa e enigma, lembrando-nos que imaginar é, por si só, uma maneira de existir.
George Henrique