Em Jazigo, encruzilhadas e ditos de um mulato Josué, Zé Mariano lança sua produção ao mundo a partir de uma empreitada ambiciosa: a de reconstruir a tradição da lírica brasileira pela visão do negro, remontando a memória e a tradição dos de baixo enquanto parte significativa da experiência poética. São os degenerados, os escravizados, os esquecidos e cansados de trabalhar que ajudam a construir a figura de mulato Josué, um corpo que participa da história (poeticamente).
Ainda que nos remeta aos versos simbolistas, às imagens barrocas e a uma realidade de tempo incerto, a escrita de Mariano absorve o tempo presente e a estética do contemporâneo através da bricolagem, ou do que podemos nomear de uma “poesia reencarnada”, em que a intertextualidade do cânone e da cultura popular servem de estruturas para a produção de imagens e da experimentação literária.
“Canta, preto velho, / canta bonito para o mar / torna o mulato Josué / apenas Josué com teu cantar”. Para além dos recursos de oralidade e a métrica que nos lembra as ladainhas e as rezas populares, os versos de Zé Mariano dialogam com uma temática predominante: o lugar da fronteira, da indeterminação. O mulato Josué enquanto sujeito amalgamado à sua raça, se materializa também na figura do pardo, cuja pele ambígua remonta aos percursos da formação da identidade brasileira, em que o povo majoritariamente é apartado do sentido da sua origem: “Essa pele clara foi herdada de Nenê […] / enquanto esse cabelo veio do preto / Josimar”. O pardo enquanto signo é a contribuição sensível de Mariano ao debate racial, elaborada também por meio da linguagem poética, de modo que a poesia é a forma literária indeterminada, a qual emula as tensões e as fronteiras entre o texto e a experiência vivida.
Não basta apenas a consciência da realidade, a poesia de Zé Mariano nos apresenta um mundo em construção: “Dançar como dançam os pretos / Cantar como cantam os pretos / Foder como fodem os pretos” e que revela a disputa de um projeto estético que não se submete à ordem, mas que escolhe um mundo imaginado, porém duro. Pois bem, a vida é dura — mas as encruzilhadas podem nos levar à emancipação.
Isabela Benassi
_outras informações
isbn: 978-85-7105-290-1
idioma: português
encadernação: brochura
formato: 13x16,5cm
páginas: 80 páginas
papel polén 90g
ano de edição: 2025
edição: 1ª