Futebol imaginário

Disponibilidade: Brasil

Marcos Abrucio começa a decidir a peleja logo de cara, com imagens como essa: “Olhavam para o mesmo pedaço do assoalho, como se assistissem a uma disputa de pênaltis entre formigas”. O autor não dá chance à retranca. Até o mullet do MacGyver ele enfiou nos arredores do seu jogo. Um conto que ri diz além das linhas do campo. “Uma dor de cabeça do tamanho de um zagueiro alemão me acordou.” Há sempre um narrador hiperbólico na meia-lua da grande área. “Anderson, a Patada do Oeste” sabe disso, mesmo naqueles dias em que a névoa da melancolia encobre todos na cancha. O que se leva para o palco do futebol e o que se traz daquele drama. Assim passeiam os personagens de Futebol imaginário, cabeça erguida ou cabeça baixa, o placar do jogo é apenas uma justificativa diante das neuroses e paranoias.

Xico Sá
Cronista político, esportivo e santista, autor dos livros A pátria em sandálias da humildade e A falta

R$58,00

_sobre este livro

Jogar sem bola é coisa de craque

 

O título de estreia do publicitário Marcos Abrucio lembra a sequência final de Blow up, de Antonioni: uns malucos jogam um tênis imaginário, sem bolinha, diante da plateia que entra na brincadeira e segue um invisível voo de lá pra cá. Lembra a expressão “jogar sem a bola”, mover-se entre adversários e companheiros antevendo a jogada ou puxando a marcação rival. Lembra outro filme, Zidane, documentário de Douglas Gordon e Philippe Parreno em que 17 câmeras focam Zizou durante um jogo do Real Madrid, um chocho empate sem gols… mas quanta coisa não rola em uma hora e meia. Abrucio pega o futebol pelo avesso: enquanto todo mundo olha a bola, ele revela o que rola do outro lado.

Entre o sonho infantil e a decepção adulta, entre a chave realista e o modo realista fantástico, são ficções breves que sempre surpreendem pelos desfechos imprevistos e pela linguagem direta, comovente e sem firulas. Exemplos? Brincando com a masculinidade frágil, “Sobre homens e trabucos” mostra que não se deve fuçar nas coisas secretas de um ídolo futebolístico — sob pena de ganhar uma decepção e uma bronca dos pais. Em “Tá olhando o quê?”, Abrucio imagina uma fantástica cadeia de olheiros, em que um sempre está espiando o outro, de olho no futuro glorioso que nunca chega. “Onde os Nike Shox não têm vez” conta a história de um craque deslocado na festa da namorada que revela um insuspeito talento. Com vocação para filme, “De bem” pega uma briguinha besta entre dois meninos de um clube paulistano e a escala até se tornar uma guerra feroz entre os pais. “Duas bicicletas e uma BMW azul”, em chave Twilight Zone, sugere que a vida pode não ser tão incrível quanto um supercraque mundial imagina. O sensível “Não fala dele” observa o esporte do ponto de vista das jogadoras e seus embates familiares. “O procedimento” também foca na vida das jogadoras, só que pela via da ficção científica, especulando bizarras e futurísticas cirurgias. “O medo do ano que vem” mostra a última dança de Anderson, medíocre jogador veterano que antes de encerrar a carreira vira um gênio da bola. “Intimidade com a dor” é outra chance para Abrucio mostrar sua facilidade para os enredos agridoces ao retratar uma velha senhora abandonada que se conecta com os filhos através do seu amor pelo futebol.

É isso: em vez de usar o cotidiano pra falar de bola, Abrucio usa o futebol pra falar da vida. Coisa de quem sabe que são necessárias muitas jogadinhas — algumas invisíveis — pra fazer um golaço.

Ronaldo Bressane

Escritor, jornalista e corinthiano, autor do romance Escalpo

_outras informações

isbn: 978-85-7105-539-1
idioma: português
encadernação: brochura
formato: 14x19,5cm
páginas: 112 páginas
papel pólen 90g
ano de edição: 2026
edição: 1ª

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