já faz mais de hora que um helicóptero da polícia militar vem e vai sobre o céu do bairro vila velha. ele também deve ficar circulando sobre as áreas ao redor, causando um barulho infernal, ó. holofotes sobre as casas. o que procuram os que coagem de cima? quais crimes cometemos vivendo nossas vidas?
21 de janeiro de 2017
R$52,00
_sobre este livro
A força da natureza é sentida pela humanidade em momentos de celebração. “O milagre da renovação em cada ano faz tudo começar outra vez?” Em cada virada de ano, nossa sina é viver ciclos entre a lembrança, o sonho e o esquecimento. Nos tornamos anciões ao vivermos cinquenta fevereiros e nos imaginamos muitos mais em uma reminiscência sobre nossa juventude do que estaríamos dispostos para vivermos um carnaval a mais. Nesse sentido, a passagem do tempo é medida pela quantidade de amuletos que partilhamos como histórias, somos mortais vivendo carnavais e atravessando a eternidade dos momentos.
Onde moramos é onde mora nosso coração — que, em quase todo fim de tarde, se senta em cadeira de balanço à calçada do bairro. Onde moramos é onde saramos das dores de amores partidos e onde imaginamos nossa partida da cidade de maresia, cidade essa massacrada de movimento, da vida retirante de sua população, gente que já chorou tanto que inventou o mar. A força da natureza também é expressada assim. Tantos quilômetros entre o instante e a eternidade que, ao mesmo tempo, não há unidade de medida universal que meça tal lonjura. A humanidade, pelo instante, manda mensagens sangrentas ao Criador, mas antes disso, são interceptadas pelos senhores da guerra que não gostam de criança. Já o papel da maternidade em nossas comunidades é solo de refúgio e de guarida; e nossas mães representam a dinâmica de prosperidade afetiva em cada morada, entendendo maternidade como a unidade entre nossos pais para nos guiar em nosso assento futuro. Sempre voltamos ou procuramos voltar em memória para esses braços: canais entre a doença e a cura, o descanso.
Em Feicebuqui entrar (2014 a 2018), o trivial e ordinário é nossa conversa com Deus e os encantados, como o canto de Sérgio Sampaio em “Leros, leros e boleros”. Em certo momento, Deus desaba do céu como os anjos de Wim Wenders no filme Asas do desejo (1987) e passa a viver no bairro, desaba com muamba nas costas em busca de maloca e tapioca; e apenas encontra morada na favela. É quando sente saudades pela infância que não viveu, pois Ele nasceu como sol. O documento histórico da metrópole é sua população. A cidade faz das casas gaiolas e as pessoas se prendem e prendem seus pássaros em prisões para eles cantarem de tristeza e de saudade. Meu canto é de pássaro novo longe do ninho. Em Fortaleza, o mar trata de enferrujar cada estrutura metálica, colapsando grades e cercas elétricas. Já o corpo do amante é preenchido de ferrugem e osso.
_outras informações
isbn: 978-65-5900-965-7
idioma: português
encadernação: brochura
formato: 13x16,5cm
páginas: 132 páginas
papel polén 90g
ano de edição: 2025
edição: 1ª