O mar pode ser lugar de inúmeros perigos e desafios. Já foi cantado e escrito assim, desde a Antiguidade, por poetas e seresteiros. Também pode ser a tão sonhada liberdade, como se atravessá-lo fosse nos levar para um sonho bom, a terra prometida ou a ilha perfeita. Aline Bernardi coloca o barco na água, com bravura, para testemunhar a aparição do poema. Mar, aqui, é caminho. Não monstros e sereias; seres fantásticos são os poemas, que surgem, engendrados, enquanto a autora mira a linha do horizonte, singrando a embarcação por sobre as ondas, grandes ou serenas. Sabedora do poder inventivo da poesia, Aline entra na água para, dançando, transformar a vida.
Escrita sinestésica, Embarcações vai em busca de novos mundos, construídos a partir de corpos em movimento. Talvez tenha fim essa viagem poética. Navegar é preciso. Talvez se chegue aos primórdios. Quem sabe a timoneira-poeta aviste uma praia, toque suas areias e sinta o cheiro das primeiras maresias? Para onde nos levarão as marés que lavam os tecidos de nossas peles? É possível ter algum controle sobre nossos destinos? Será que o próprio destino é alcançar os começos?
O certo é a simbiose, poderosa trama entre a navegante, o barco e a natureza marítima. A linguagem do livro nasce desse encontro. As costas do corpo se misturam às costas do continente. As nuvens dançam. À bordo do barco-poema, Aline borda com verbos e conchas, olhos e faróis, as velas dessa navegação ancestral.
O vento empurra a canoa à vela e, desse modo, nos modela. A escrita é filha do vento. Somos arremessados de um lado a outro, da popa à proa, de bombordo a estibordo, pelas fortes tremulações deste livro que você agora tem em suas mãos. Nosso corpo é flexível. Queremos esticar a corda, retomar o norte, desatar os nós, desembarcar em um atol biodiverso. Mas é o tempo, esse grande senhor, na verdade, é o tempo que nos balança e nos serpenteia.
Abra os olhos, leitor, leitora! Nosso barco — esse no qual Aline Bernardi nos transportou até aqui — está à deriva. Deixemo-nos levar. Vamos para dentro d’água, brincar com os cavalos-marinhos. Façamos a travessia a galope. Nunca se está perdido enquanto estiver vivo o poder do encantamento. As palavras são os remos. Rumo ao continente, não nos esqueceremos jamais da viagem que fizemos. Nosso corpo foi pedra, sal, peixe, coral, maresia. Terra à vista! É o dia que está nascendo, junto com o verbo. Aline nos oceanizou com sua escrita barcorpórea. Que bom foi dar esse mergulho no infinito do caminho-mar. Viver é preciso!
Thiago Thiago de Mello, poeta e compositor