“Logo nas minhas primeiras tentativas de compreender os surtos e a depressão de minha mãe, procurei ajuda nos livros disponíveis à época e os que mais me ajudaram não foram os de teor científico, mas sim, dois relatos autobiográficos: O demônio do meio-dia, de Andrew Solomon, e, Uma mente inquieta, de Kay Redfield Jamison. Foi neles que me inspirei para escrever minhas experiências.”
Assim Del Candeias refere as fontes de inspiração para este livro, que narra a difícil realidade de alguém que vivenciou a luta de sua mãe para lidar com uma intensa depressão crônica e, posteriormente, com os problemas do Alzheimer. Partindo de uma experiência real, o autor constrói um texto de alta intensidade emocional, no qual memória, linguagem e lucidez disputam espaço com o silêncio e o apagamento. Não se trata de um livro sobre as doenças em si, mas sobre a vida que se organiza ao redor dela — e sobre os danos invisíveis.
O texto explora com precisão os efeitos colaterais que não aparecem nas bulas: a solidão, a inversão de papéis, a culpa difusa, a necessidade precoce de endurecer. Nesse ambiente, o álcool aparece não como excesso, mas como estratégia de sobrevivência, um gesto compreensível dentro de uma lógica de abandono.
A escrita é marcada por sobriedade e contenção. Não há apelo ao sentimentalismo nem à redenção fácil. O autor aposta na clareza, no rigor da observação e numa linguagem que expõe sem dramatizar. Ao mesmo tempo, ele propõe uma reflexão profunda sobre herança psíquica, memória familiar e os limites entre responsabilidade e destino.
Esta é uma obra para quem se interessa por literatura de testemunho, por narrativas sobre saúde mental, dependência e relações familiares marcadas por assimetria e silêncio, mas ela se afirma também como obra literária em sentido pleno. Embora ancorada em fatos reais, ela se constrói com recursos do romance autobiográfico, colocados em jogo por um autor acostumado à composição ficcional. A memória não é tratada como arquivo fiel, mas como matéria estética, sujeita a cortes, elipses e rearranjos. Assim, o livro pode ser lido tanto como relato de uma experiência extrema quanto como uma obra de ficção literária, em que a vida, filtrada pela escrita, alcança complexidade, ambiguidade e permanência.