Um pronome que soa como chapada: “ela!”. Uma vergonha por ter feito do amor ocupação por mais de meia década.
“Amor não deve ser ocupação. Se assim for, rapidamente passa a gerar apenas preocupação” — dizia-lhe a mãe, que tinha um vício por formular ditados.
O que a mãe não sabia é que não só prefixos são capazes de mudar uma vida; naquele dia um pronome foi capaz de fazer todo o estrago. Três letras que se impunham ao invés de duas.
A consoante fatal, fonte da articulação. Não se conseguia mexer nem desfixar o olhar do chão. Havia lá um pêssego caído já apodrecido.
Não disse uma única palavra a mais e aceitou aquele pronome como sentença. “Ela”. Levantou-se, deu três passos, pegou no pêssego caído no chão e atirou-o para o saco do lixo lilás.
Naquela cozinha só havia espaço para um evento de putrefação.
(Ela, página 111)
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