Em seu Crônicas de amor e outros vírus, a escritora dança com as palavras e a dançarina escreve com seu corpo dançante. Tulíola Lima escreve/dança acessando não suas memórias pessoais, o seu passado. Em seu texto auto-biográfico-ficcional ela acessa e transmuta sensações, paladares, toques, gestos, paisagens. Nada é imagem cristalizada no passado. Tudo é vida que se renova e se reinventa.
O modo peculiar em que a cotidianidade é tratada em seus textos lança o gênero crônica em outras searas. Não mais sob a égide de Cronos, dos ponteiros do relógio, das marcações e convenções do calendário. Seu texto está sob influência de Aion, o tempo do acontecimento, do ilimitado. Assim, passado, presente e futuro se misturam, bem como o pessoal e o impessoal, o individual e o coletivo: “Um corpo de cabelo estranho que passa: sozinho enquanto mulher, coletivo enquanto raça”.
Nas suas crônicas afetos tristes e alegres encontram seus antídotos. Morte e vida, despedidas e encontros, violências e paixões povoam o mesmo espaço escritural, alteram a respiração e a tonalidade de quem lê e de quem é lida. Textos altamente estéticos e poéticos, profundamente éticos e realistas. Não que eles representem a realidade. Eles recriam a realidade que se apresenta entre a marca escritural da autora e suas vivências e a leitura desassossegada e impactada dos seus leitores. Eles fazem pensar, fazem sentir. Eles delineiam outras lógicas, outras sensibilidades.
Para além do bem e do mal, a natureza se apresenta em seu texto. Não o idílico das paisagens, mas os movimentos de baixa e alta maré, os ajustes e desajustes tectónicos, as trombas e cabeças d’águas, os redemoinhos, picadas de serpentes e mordidas de tubarões. As raças se reinventam, os agrupamentos se constituem, as tradicionais filiações se desatam, se esfacelam. Seu texto nos faz olhar para fora para enxergarmos o mais profundo que nos une e que nos aparta. Enfim, na poética de Tulíola Lima tudo é movimento. É dança amorosa que lança nosso corpo sutilmente ou, quem sabe, violentamente à terra, da qual todos viemos e voltaremos. É vírus que prolifera a vida.
Juliano Butz