Crônicas de amor e outros vírus

Disponibilidade: Brasil

Tem amores que nos chegam junto com pássaros. Descobri esta verdade há algum tempo e a vi desvendada em duas cenas. Na praça do bairro conhecida como praça do beijo, estava levando o cão para passear, imersa em lembranças. Enquanto ele andava solto, pressenti dois tucanos que se aproximavam e quando olhei para o alto da árvore, em um canto desta praça, eles pousaram no galho grande, em seguida. Pouso que durou o tempo do meu espanto. E partiram, como em outros momentos casais humanos fizeram o mesmo.

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_sobre este livro

Em seu Crônicas de amor e outros vírus, a escritora dança com as palavras e a dançarina escreve com seu corpo dançante. Tulíola Lima escreve/dança acessando não suas memórias pessoais, o seu passado. Em seu texto auto-biográfico-ficcional ela acessa e transmuta sensações, paladares, toques, gestos, paisagens. Nada é imagem cristalizada no passado. Tudo é vida que se renova e se reinventa.

O modo peculiar em que a cotidianidade é tratada em seus textos lança o gênero crônica em outras searas. Não mais sob a égide de Cronos, dos ponteiros do relógio, das marcações e convenções do calendário. Seu texto está sob influência de Aion, o tempo do acontecimento, do ilimitado. Assim, passado, presente e futuro se misturam, bem como o pessoal e o impessoal, o individual e o coletivo: “Um corpo de cabelo estranho que passa: sozinho enquanto mulher, coletivo enquanto raça”.

Nas suas crônicas afetos tristes e alegres encontram seus antídotos. Morte e vida, despedidas e encontros, violências e paixões povoam o mesmo espaço escritural, alteram a respiração e a tonalidade de quem lê e de quem é lida. Textos altamente estéticos e poéticos, profundamente éticos e realistas. Não que eles representem a realidade. Eles recriam a realidade que se apresenta entre a marca escritural da autora e suas vivências e a leitura desassossegada e impactada dos seus leitores. Eles fazem pensar, fazem sentir. Eles delineiam outras lógicas, outras sensibilidades.

Para além do bem e do mal, a natureza se apresenta em seu texto. Não o idílico das paisagens, mas os movimentos de baixa e alta maré, os ajustes e desajustes tectónicos, as trombas e cabeças d’águas, os redemoinhos, picadas de serpentes e mordidas de tubarões. As raças se reinventam, os agrupamentos se constituem, as tradicionais filiações se desatam, se esfacelam. Seu texto nos faz olhar para fora para enxergarmos o mais profundo que nos une e que nos aparta. Enfim, na poética de Tulíola Lima tudo é movimento. É dança amorosa que lança nosso corpo sutilmente ou, quem sabe, violentamente à terra, da qual todos viemos e voltaremos. É vírus que prolifera a vida.

Juliano Butz

_outras informações

isbn: 978-65-5900-989-3
idioma: português
encadernação: brochura
formato: 14x19,5 cm
páginas: 72 páginas
papel polén 90g
ano de edição: 2025
edição: 1ª

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