Quem conta um conto acrescenta mais um ponto na estrada já determinada de cada um. Com sensibilidade, o escritor Nilton Marlúcio de Arruda constrói pedra a pedra os seus contos, fados literários; não como uma narrativa acidental, mas com um propósito bem costurado e estrutural. A força do livro reside na sua capacidade de articular o político com o poético.
Em “Carquejeiras, as mulheres invisíveis”, a luta pela memória torna-se um ato de resistência contra o apagamento histórico, narrado com um realismo sóbrio que evita o sentimentalismo fácil. Já em “A freira numa gira de fados”, o sobrenatural e o social entrelaçam-se, criticando a intolerância religiosa através de um imaginário que bebe tanto da tradição popular quanto da rebeldia contemporânea.
O autor oscila entre o coloquial e o lírico, com uma densidade linguística que reforça o carácter “fadista” da escrita: uma elaboração consciente que transforma a dor em arte. Contos como “Adamastor, o gato voador” e “Entre carros e gaivotas” destacam-se pela subtileza com que tratam a solidão e o desenraizamento, usando elementos simbólicos (um gato-águia, gaivotas urbanas), para falar de invisibilidade e conexão.
A saudade, este bem comum da língua portuguesa, também é elemento marcante nalguns contos. Ela é deslocada do plano individual e nostálgico para o território da memória coletiva e da justiça social. Esta releitura é fundamental, pois contribui ao tirar o fado de qualquer idealização populista e devolve-lhe o fio da navalha, a sua capacidade de corte social.
A construção narrativa, no entanto, segue o mesmo espírito do género musical; no qual o drama das personagens é maior do que elas próprias. A menina Iris, a avó descartada, o menino cego e sua águia-gato; cada uma encarna uma luta contra um sistema (religioso, familiar, económico) que tenta defini-los.
A força destas personagens não está na vitória, mas na resistência do gesto, no ato de permanecer resiliente, apesar dos reveses. A linguagem é sempre trabalhada, com um ritmo por vezes próximo da cantiga, sem medo de experimentar a pontuação e o fluxo de consciência para transmitir urgência e emoção.
Fica exposta, nestas páginas dos Contos de fado, a presença de um escritor comprometido com as margens sociais, geográficas e existenciais, dando voz a personagens cujas vidas são, elas próprias, cantigas de dor e de resistência. O escritor dá inúmeras provas de que este seu fado, enquanto estrutura de sentir, é uma forma literária potente.
Ozias Filho
escritor, fotógrafo, editor