Todo espaço é um território de disputa. Digo isto reproduzindo a máxima das ciências sociais, mas visando um território outro que não geográfico. O território de que falo é do imaginário e, extrapolando a ideia, da ficção.
Em que espaços é permitido refazer o imaginário ou reapropriar-se dele legitimamente? Aos cariocas, legou-se a imagem das praias de onde podemos ver o Pão de Açúcar; a Copacabana e Ipanema de Vinicius e Tom; o Leblon de Manoel Carlos.
As narrativas deste livro despiram-se do imaginário limitado para abraçar a identidade insular da Baía de Guanabara — hoje agonizando, sufocada pela ação humana em nome do progresso.
Quando me aproprio deste imaginário, eu o faço com a coragem de não esquecer como, mesmo por meio do sublime, do horror ou do monstruoso, este território é, sim, digno de existir para além de um real fraturado, dilacerado e apagado.
As quatro histórias que estão nesse livro evocam medos, crenças e horrores que permanecem, mas que escolhi costurar com a agulha do fantástico. Aos que têm talassofobia, recomendo cautela na leitura, pois pode suscitar incômodos físicos; ainda assim, incentivo a não parar, porque medo e curiosidade andam de mãos dadas.
Se são contos, estórias, fábulas, talvez os leitores — ou a crítica — possam decidir; o que posso dizer é que não são narrativas realistas.
Espero que, nas páginas a seguir, você possa conhecer outras possibilidades de fantástico brasileiro e carioca, tão rico e tenebroso quanto qualquer cidadezinha de um interior norte-americano.
Úrsula Antunes