Serpentes que caem do céu é um livro com um projeto bem delineado, marcado pelo horror e por emoções fortes. Os seis contos tratam, cada um à sua maneira, de revelações da vida cotidiana, a partir de eventos marcados pela mudança — seja causada pelo desejo, pela violência ou pela catástrofe, de pequenas e imensas magnitudes.
O título do livro é derivado do último conto, no qual há uma chuva mítica de cobras, mas tratada de forma casual, com direito ao encontro com cascavéis de surpresa ou uma coral escondida no molho de chaves, uma mistura do fantástico imiscuído ao cotidiano, um traço característico das outras histórias, como um garoto que parece mais peixe do que humano. No livro, surgem temas ainda como a ambivalência das relações familiares, afinal, “nascer do mesmo ventre e compartilhar a mesma refeição nunca foi sinônimo de ratear o mesmo destino”; e a herança patriarcal, que marca a assimetria entre pessoas próximas, “eu era a filha e ele o pai. Um coitado, viúvo, há anos”.
O horror, principalmente causado pela violência de gênero e pelo abandono, é marcante ao longo da obra. As relações mais profundas entre pessoas, como o amor de mãe e filho, entre filha e pai, entre irmãs e até entre amantes, são colocadas em xeque, com colisões de personagens a partir de desentendimentos e sentimentos mesquinhos. Esse percurso temático é temperado por descrições afiadas, capazes de ver o amor como odioso e estúpido, na mesma medida em que o leite é separado do soro com o limão. Ou ainda como paredes podem absorver lágrimas grossas.
Nos cenários, desfilam casas de madeira construídas pelas próprias famílias, fazendas com represas e funcionários numerosos e prédios de apartamentos, nos quais ninguém ajuda ninguém, onde crimes são ignorados por vizinhos que preferem somente cuidar da própria vida, a mentalidade individualista que habita do campo à cidade.
Em seu livro de estreia, Victória Haydée surge como uma nova voz na produção de horror brasileira contemporânea, com sentimentos fortes, onde o inesperado habita a próxima página.
Ana Rüsche