Entre memórias e poeira de cômoda, o lirismo que emerge dos poemas de Déborah Bacelar opera como uma experiência de retorno ao peso dos dias. É como se o conjunto de poemas nos lembrasse de que, sim, a casa também comporta borrões e fragmentos inexatos.
Tais lampejos incompletos dão, paradoxalmente, contorno às imagens que transmitem movimento. Aqui, a casa é parte do próprio corpo, duto da experiência diária. Neste recinto, retalhado com tamanha lucidez, há um sujeito lírico que, como arqueólogo à cata de vestígios, assume duas notáveis posições.
De um lado, questiona os papéis de gênero que limitam ou impossibilitam a permanência de figuras femininas na mesma medida em que experiencia o desejo, a recusa e a ousadia diante de estruturas sexistas e limitantes: “uma cadeira/ espaço de muita vida/ cabe um céu de pedra […]/ só não as carolinas”.
De outro, no mesmo tempo em que narra, estende as mãos àquelas fraturas que se alargam nos quartos ou na nossa consciência alvejada, seja ao ansiar a inexistência do outro, seja ao reconhecer a própria culpa diante de um delito.
As situações descritas e representadas pela poeta, nesse sentido, tecem um fio que conduz o leitor a uma compreensão divertida e acrobática em relação às diferentes subjetividades, por meio, inclusive, de inteligentes alusões e alegorias. Há, ao longo dos textos desta casa de retalhos, um exercício constante de alteridade.
Douglas Laurindo, professor e poeta