Arché: água, fogo e urina

Disponibilidade: Brasil

11:47. Da janela. Do vidro da janela, vidro embaçado, esbranquiçado da janela, a gente vê. Ou não vê. Não dá pra ver mais o que é céu e o que é chão. A chuva veio e apagou o limite. A borracha da chuva apagou o limite que separa a terra e o céu. Tudo branco. Um branco molhado e frio. Branco. Ao contrário da águafogo. Águafogo ardida. Ardida e quente. Ardida, quente e laranja. Cor de quase sangue. Cor de quase fogo, e quase sangue que devora minha carne íntima. Íntima acho que já não é, já não é faz tempo. Que é que vou fazer? Que é que eu faço se não parar essa chuva? Melhor ir, melhor ir assim mesmo.

R$58,00

_sobre este livro

A chuva não é apenas um fenômeno meteorológico, é uma metáfora implacável para o desnorteio da psique humana. Por meio de um tríptico narrativo, somos confrontados com as vozes de um artista, um operário e uma prostituta, cada qual tateando os contornos de um mesmo acontecimento sob o derramar constante de um céu dantesco. A obra se constrói sobre o alicerce da polifonia, para nos mostrar que não há uma consciência soberana que submete as demais, mas uma pluralidade de vozes plenivalentes que interagem em sua irredutível alteridade. Cada narrador é um sujeito de seu próprio discurso, que lança sobre o real uma “ideia-força” responsável por moldar a cidade como um labirinto, uma metalúrgica infernal ou um antro de dor. Cada enunciado torna-se um campo de batalha onde diversos pontos de vista — ou enunciadores — se manifestam. O sentido não é uma unidade estanque, produto e um ponto de vista que cria a realidade, que aprova ou rejeita as perspectivas que o atravessam. Assim, a “verdade” do acontecimento fragmenta-se: ela deixa de ser uma essência imutável para tornar-se uma singularidade. O que é verdadeiro para o artista no auge de seu delírio estético não o é para o operário sufocado pelo fogo das máquinas ou para a mulher que transmuta seu trauma em vingança. Ao cruzar erudição e coloquialidade, a narrativa revela que a verdade é uma rede de práticas e afetos, situada no tempo e no lugar daquele que sente. A linguagem é construída sobre repetições de frases e imagens, gerando um efeito de hipnose que contribui no desenvolvimento da temática existencial. Em meio à cadência sensorial e rítmica semelhante a um mantra ou música, o que confere densidade poética ao texto, o leitor é convidado a abandonar a segurança da leitura linear para se molhar na incerteza. Afinal, neste livro de vozes desencontradas, a única certeza é que, uma vez cruzada a porta da esperança, a chuva — e a vida — continuará a cair, revelando tantas verdades quantos forem os olhos dispostos a encará-la. Se a própria narrativa é responsável pela concepção do real, a arché não deve ser a água, o fogo ou a urina, mas a própria linguagem que as traz à luz.

_outras informações

isbn: 978-85-7105-515-5
idioma: português
encadernação: brochura
formato: 14x19,5cm
páginas: 104 páginas
papel pólen 90g
ano de edição: 2026
edição: 1ª

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