A todas as filhas de mães sem filhas. A dedicatória de Antes de ser pequena, o primeiro romance de Jéssica Pozzebon, mostra que nem tudo o que parece, é. O semblante de uma relação — e também o de uma mulher — é sempre diferente do que se espera. Algumas relações não existem, há marcas que persistem e dizeres que forjam existências. Ela dá notícias do que será este livro, cujo título leva a pensar sobre o tempo: o que pode acontecer antes mesmo que uma menina comece a crescer? Que tempos são os de uma infância? O que há de poder no que se viveu muito cedo, em uma família? As vozes e as memórias da menina e da mulher que narram este livro nos contam.
“É no olhar do outro que eu existo.” Assim começa a narração de uma vida marcada desde cedo pela percepção refinada das paixões e das inconsistências do mundo. Um mundo ainda pequeno, composto principalmente por mulheres: ela, a mãe, as avós. Ligadas a ela pelo destino dado ao corpo e pela solidão. A herança recebida da avó e da mãe na forma de semelhanças físicas e ditos é tomada pela menina como um fato incontestável: “a filha da filha da puta”.
“Tal qual uma constelação, cada peça de uma família tem um lugar fixo. Se escapa, muda o céu e corre-se o risco de deixar perdidos, quem delas se serve na Terra.” Assim, sem poder se mover, resta uma menina quase morta, que tenta saídas literais para tentar encontrar respostas para a sua angústia, como abrir a barriga das bonecas e arrancar os olhos das pelúcias. Um “corpo pequeno de menina de poucas vidas e muitos silêncios”.
A adolescência inaugura um tempo de outras saídas, mas também reforça o destino: ainda há um corpo de que o outro goza, ainda há muitas camadas de violência. Mas uma premiação na escola descortina uma outra nomeação: “erudita com as palavras”. Um outro reconhecimento, enfim. A destreza com a escrita, vinda da percepção de que há vida na língua, também uma herança da avó: “o dom das palavras voadoras como lanças ao céu”. A escrita indica um caminho: “as palavras avivam e mortificam. Anestesiam e acordam. As palavras abrem os olhos e os fecham”. Seriam elas uma via de salvação para um corpo até então aprisionado em uma relação mortífera com o gozo materno?
Jéssica Pozzebon constrói um livro fabuloso em que a sensibilidade e a brutalidade coabitam no delicado olhar de uma menina-mulher sobre a vida, a maternidade, o feminino. Um romance em que o dizer atravessa o tempo, porque pequena ou grande, a autora toca uma dimensão que não obedece a passagem dos anos: o tempo de Dentro.
Priscila de Sá Santos
Psicanalista, mestre em estudos literários