Antes de ser pequena

Disponibilidade: Brasil

Ler e reler Jéssica Pozzebon me fez acessar qualquer lugar da infância. De qualquer parte que eu buscasse. Havia um sonho. O tronco de um brinquedo. O fruto de uma árvore. Quanta imagem fui buscando aqui dentro! E ela me oferecendo máximas. Mínimos pensamentos se entrecruzando na narrativa. Montando aos poucos o corpo da história. A gente lê um livro porque nossa memória de alguma forma faz parte daquela memória. Ali lida. Um pedaço que seja. Das mãos. Das pernas. Da cabeça decapitada de uma boneca. Entre as mobílias da família uma fala (e muito silêncio) que ainda reverbera. E fica gritando na gente. Desde muito tempo e para sempre.

R$52,00

_sobre este livro

A todas as filhas de mães sem filhas. A dedicatória de Antes de ser pequena, o primeiro romance de Jéssica Pozzebon, mostra que nem tudo o que parece, é. O semblante de uma relação — e também o de uma mulher — é sempre diferente do que se espera. Algumas relações não existem, há marcas que persistem e dizeres que forjam existências. Ela dá notícias do que será este livro, cujo título leva a pensar sobre o tempo: o que pode acontecer antes mesmo que uma menina comece a crescer? Que tempos são os de uma infância? O que há de poder no que se viveu muito cedo, em uma família? As vozes e as memórias da menina e da mulher que narram este livro nos contam.

“É no olhar do outro que eu existo.” Assim começa a narração de uma vida marcada desde cedo pela percepção refinada das paixões e das inconsistências do mundo. Um mundo ainda pequeno, composto principalmente por mulheres: ela, a mãe, as avós. Ligadas a ela pelo destino dado ao corpo e pela solidão. A herança recebida da avó e da mãe na forma de semelhanças físicas e ditos é tomada pela menina como um fato incontestável: “a filha da filha da puta”.

“Tal qual uma constelação, cada peça de uma família tem um lugar fixo. Se escapa, muda o céu e corre-se o risco de deixar perdidos, quem delas se serve na Terra.” Assim, sem poder se mover, resta uma menina quase morta, que tenta saídas literais para tentar encontrar respostas para a sua angústia, como abrir a barriga das bonecas e arrancar os olhos das pelúcias. Um “corpo pequeno de menina de poucas vidas e muitos silêncios”.

A adolescência inaugura um tempo de outras saídas, mas também reforça o destino: ainda há um corpo de que o outro goza, ainda há muitas camadas de violência. Mas uma premiação na escola descortina uma outra nomeação: “erudita com as palavras”. Um outro reconhecimento, enfim. A destreza com a escrita, vinda da percepção de que há vida na língua, também uma herança da avó: “o dom das palavras voadoras como lanças ao céu”. A escrita indica um caminho: “as palavras avivam e mortificam. Anestesiam e acordam. As palavras abrem os olhos e os fecham”. Seriam elas uma via de salvação para um corpo até então aprisionado em uma relação mortífera com o gozo materno?

Jéssica Pozzebon constrói um livro fabuloso em que a sensibilidade e a brutalidade coabitam no delicado olhar de uma menina-mulher sobre a vida, a maternidade, o feminino. Um romance em que o dizer atravessa o tempo, porque pequena ou grande, a autora toca uma dimensão que não obedece a passagem dos anos: o tempo de Dentro.

Priscila de Sá Santos

Psicanalista, mestre em estudos literários

_outras informações

isbn: 978-85-7105-226-0
idioma: português
encadernação: brochura
formato: 14x19,5cm
páginas: 156 páginas
papel polén 90g
ano de edição: 2025
edição: 1ª

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