O primeiro livro de contos da romancista Débora Rosa é uma composição que se desenvolve por um tênue cruzamento da linha histórica.
A contista demonstra domínio na construção dos diálogos, dos monólogos interiores, dos discursos direto e indireto livre; técnicas que aproximam o leitor das consciências plurais das personagens, principalmente, as femininas.
São elas que constroem as camadas, os níveis de subjetividades que dão corpo às indagações, inquietações atemporais num mundo de puro estranhamento, de mal-estar, de não pertencimento, por isso a ênfase na palavra RECUSA no âmbito semântico de afirmação do sujeito.
O embate no campo díspare dos desejos, traumas e percepções não se resume às relações amorosas entre sexos ou inquietações feministas, alastra-se ressaltando o complexo entrelaçamento intersubjetivo que envolve mulheres, genitores, irmãos, amigos, casais; campo e cidade; passado e presente. A modulação do tempo/espaço das narrativas participa ativamente da complexa formação, no devir a ser das personagens.
Os variados temas como conservadorismo, tabus, narcisismo, hipocrisia, violência, abandono, solidão, angústia e desejo estão dialogicamente confrontados na arena lírica e psicológica dos enredos.
Em “Borrasca”, o leitor vai se deparar com um dos pontos altos da composição de Débora Rosa. O instigante viés filosófico sobre as intempéries e os valores materiais está presente na imagem: tudo que é sólido desmancha-se na ventania, na metáfora, no açoite irado da borrasca. A concisão de algumas cenas dialoga com o cinema, em alusão ao personagem cineasta. O retorno do filho pródigo à terra natal e a resposta hostil da mãe natureza à soberba.
O conto “Anã Branca” que dá nome ao livro é belissimamente composto por imagens poéticas vivenciadas pelo tato e pela visão sensível da narradora-personagem em estado epifânico do devir a ser com outro corpo e a natureza, que se abraçam, se confundem e se separam no torvelinho do estranhamento e ausências.
Deixo aqui algumas iscas para içar a mente e provocar o desejo do prazer do texto que espera por você, leitor!
Isa Corgosinho