A leitura do tempo, de Adriana Carneiro, é uma obra literária composta de 54 poemas sobre a relação que estabelecemos com o tempo em suas diversas vertentes: física, metafísica, política, cotidiana e existencial (“morrer em vida é desperdício de tempo dos segundos que se vive…”). Com a sensibilidade de um indivíduo que vive à frente do seu tempo, a autora observa o fenômeno ora como finito (“até é o limite de tudo”), ora como infinito (“o tempo é pleno”) e nos convida a nos deixarmos guiar pelos versos que compõem cada poesia e transmitem diferentes reflexões acerca do mundo tal como nos é apresentado; diariamente, entre outros temas, sobre o feminicídio (“a criança vira órfã de mãe/marcada dos cacos de sonhos/quebrados/no dia do seu aniversário”). Mundo este, onde vivem grupos e indivíduos — inclui-se o eu lírico —, com seus questionamentos, anseios, sentimentos de pertencimento e identidade, suas limitações e memórias.
De alguma forma, das ocorrências, seja do ponto de vista dos fenômenos da natureza (“éolo”, “raios e trovões”) ou pelos nossos próprios feitos, somos passíveis de sermos marcados por alguma observação, que possa no futuro facilitar nosso retorno ao passado e, com o tempo, nos encontrar novamente por meio das nossas lembranças como na poesia: “os dias passam” (“percebia-se a alegria num longínquo momento/talvez pela solitude ao visitar anos vividos”). No entanto, o tempo vai além, atravessa continentes, paira nas zonas de conflitos que movem o mundo (“pacto de cessar-fogo/sem prazo fixado/gera agonia de fuga/reféns capturados”), como versa a autora na poesia “poderes”, enquanto aqui, o tempo da exclusão das minorias não tem fim (“vidas-trans”). Com uma linguagem não menos poética, Adriana provoca com certa ironia as relações humanas no mundo digital (“seja”, “queira”, “tenha” e “gaste”), em outras, ela cogita, imageticamente, diversificadas formas de vida, dinâmicas e, quem sabe; com um nascer do sol específico (“multiverso”). Para Adriana Carneiro, no sentido figurado, o tempo é quase um ser e, desta analogia, reforço o convite para conhecer este “tempo-quase-humano”, que segue pulsando em nós, nos norteando conforme nossa disposição diária para a vida, à medida que amadurecemos com o tempo ou no tempo nos perdemos no espaço cotidiano, lugar de múltiplas realidades.
Dilma Bartniczak