Uma mulher presa em seu próprio apartamento com fobia de sair de casa tem contato com o mundo apenas por meio do cobogó do corredor de seu prédio. “Aos poucos a claridade que passava pelo cobogó desfalecia, começavam as músicas dos bares e as estrelas do céu. São tantas as coisas que o cobogó deixa mais bonitas. Aqui de cima, a poeira é dourada e cai mais lentamente.”
Um homem que questiona se o Distrito Federal é o aeroporto que faz voar o avião-Brasília. “E o povo que trabalha no avião? Quem leva a comida pros passageiros, quem limpa esse avião pra ele voar todo dia? Ninguém fala?”
Uma mulher diante dos papéis do divórcio comemora “pelo menos não tem que fazer curso de separados, como se faz cursos de noivos. Nem brindar. Casar é decisão que se toma bêbada, mas separar é atitude sóbria”.
Assim é Setor de Contos. As histórias pouco seguem uma linha do tempo, mas todas trazem memórias, ruminações e reflexões do cotidiano que levam os leitores a descobrirem por si próprios os dilemas dos personagens e, por que não, de si mesmos? Ao explorar aspectos da condição humana, Fernanda Cunha não cai na vala escura e fria da densidade, pelo contrário, passeia pelas nossas profundezas com leveza e bom-humor.
O livro é um mosaico de personagens distribuídos em 18 histórias que a autora escutou e/ou criou, algumas, porém, são baseadas em sua experiência, como em Céu na Terra, cuja personagem central não por acaso se chama Fernanda. O luto dela pela perda da avó reacende durante visita à casa de uma amiga num almoço de domingo. “Antes de pensar em dizer não, o carro já estava estacionado e eu, cruzando a calçada. De repente, apareceu um prato na minha mão e uma cadeira na minha bunda. Quase pedi que me chamassem de Nanda. É como se eu pudesse ouvi-la agora. Engraçado, a gente nunca esquece a voz de quem morreu.”
Brasília é o ponto comum entre todos esses personagens. Embora o livro seja uma ode à cidade, nele, a capital do Brasil nunca é uma mocinha. Ora é vilã, ora é vítima de turistas superficiais, é também um “espelho do céu cheia de gente do inferno” ou “uma pista de discos voadores à espera de um ataque alienígena”. Embora a autora não deixe claro se Brasília “é uma cidade grande com cara de pequena ou pequena com cara de grande”, uma coisa é certa, o leitor terá a certeza de que Brasília é mais, muito mais, do que política. “Brasília sou eu, Brasília é você!”.