“O importante é ser você”
Máscara, Canção de Pitty, 2003
Qual o preço de sermos nós mesmos? Para algumas pessoas, o custo é bem mais alto. Esse é um dos muitos questionamentos que Giulia Corrêa traz em Tem até menino que “vira” mulher (e outras mentiras que te contaram).
Esse título não é apenas provocativo, mas também um convite ao desmonte de certezas. Em sua obra de estreia, Giulia nos conduz pela sua infância, quando o armário da mãe era um portal mágico e, ao mesmo tempo, o lembrete de um corpo que parecia uma cela. Por meio de uma escrita que passeia entre o desabafo e a revolta, experimentamos a urgência de quem precisou morrer uma vez para, finalmente, começar a viver.
Dividido em três atos, o livro traça a cartografia de uma transição que é tanto íntima quanto política. Giulia escreve sobre o peso dos ombros largos e outros desconfortos, sobre o alívio de ver seu nome florescer, sobre transformações, escudos, medos, incertezas e coragens. Entre o lodo e o caos paulistano, Giulia também encontra beleza. Encontra o brilho do esmalte com glitter e o conforto(!) do salto alto.
Esta obra é um espelho que nos corta o peito e que reflete; reflete a realidade dura de ser e existir como pessoa trans na sociedade, reflete nossa própria ignorância e responsabilidades. Páginas que transmitem o despertar de uma metamorfose necessária, na qual o conceito de vida e viver são muito mais complexos do que pensávamos.
A poesia de Giulia Corrêa é um lembrete potente de que, apesar do mundo, aqueles que têm força para serem quem são, tornam-se gigantes.
Alana Jana