Livro de estreia da escritora Ana Carolina Marsicano, Estocolmo é um convite ao profundo, à imersão no deserto inaugurado pelo fim do amor. Nele não se fala do amor abstrato, lírico, romântico. Mas de disputas e dores típicas de relacionamentos heterossexuais, mais especificamente, das implicações de se envolver afetivamente com homens, nos tempos atuais. A faísca que inicia a escrita parece vir das seguintes perguntas: como amar quem foi ensinado a dominar? Como deixar de amar aquele que goza ao ferir?
“a mágica do patriarcado é essa: / olhar o monstro / e chamar de homem cansado”.
Com metáforas que explicitam os conflitos e as diversas violências que constituem o tecido do amor heterossexual, os poemas são pungentes e têm o ritmo febril da luta pela libertação, pela recuperação da posse de si, do corpo e da mente, encarados como territórios colonizados, palcos de batalhas sangrentas no mundo material e espiritual, pois os saberes ancestrais afrobrasileiros, que fazem parte do repertório da autora, também integram o texto.
“o que era meu / voltou pra carne, / ferida reaberta em sinal de vida / e meu nome / devolvido à boca certa. / falo alto. / pra me ouvir inteira”.
Ana Carolina faz poesia feminista ao desvelar com sofisticação os mecanismos que tornam o pessoal político. Estocolmo fala de uma experiência pessoal que é também espelho, com grande capacidade de gerar identificação com o leitor. O fio condutor que confere unidade ao livro é o da inépcia masculina quando o assunto é o cuidado. Todo ele foi terceirizado: o cuidado consigo, com os afetos e tudo que sustenta a vida. O masculino hegemônico aparece com o seu tamanho real, valendo o que pesa, posição pouco honrosa.
“eu aprendo a limpar com raiva, / a varrer o que é dele com vassoura curta, / a separar culpa de resíduo, / a jogar fora o que fede a descuido”.
A poesia feita em Estocolmo é reflexiva e instigante, encara temas espinhosos de forma corajosa, ilumina paradoxos e complexidades e indaga se é possível fazer do amor um lugar de descanso, de prática de alteridade, dentro da heterossexualidade.
Clarissa Galvão
Socióloga e idealizadora do Clube Traça